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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonarismo borrou o limite entre política e vilania

A raiva e o ódio se transformaram em ativos políticos importantes - iStock
A raiva e o ódio se transformaram em ativos políticos importantes Imagem: iStock
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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

02/08/2022 04h00

Sempre que se fala da violência política do bolsonarismo aparece um bolsonarista para falar da facada, do Adélio, do PSOL. Imaginar que Jair Bolsonaro inaugura a violência política brasileira é algo que encanta aqueles que vivem da ideia de um passado idílico.

A violência verbal e física faz parte da política, tanto no Brasil quanto em outros países. Não deveria, já que a proposta política é ser o avesso da barbárie, a forma negociada de convivência. Mas existe, o ser humano é complexo e tem dentro de si a violência.

Ainda que a gente reconheça fatos, a sensação de que vivemos uma época diferente, mais brutalizada, é algo corrente. O tipo de posicionamento público do bolsonarismo é algo que se repete em Trump, Duterte, Orbán, Modi e outros pelo mundo.

Houve, nas eleições passadas, quem chamasse de "direita casaquinho" os que rejeitaram Jair Bolsonaro justamente pelo discurso que banaliza a violência e desce o nível do debate.

Criou-se no imaginário político brasileiro a ideia de que exigir compostura, civilidade e respeito humano seria uma frivolidade. Os que se comportam como adultos civilizados seriam farsas enquanto os "espontâneos" são a interlocução direta com as massas.

Isso não valeu só para o Brasil. O discurso de Donald Trump, por exemplo, sempre foi algo visto entre o folclórico e o perverso. No entanto, foi capaz de romper a tradição dos republicanos e fazer um presidente da maior democracia do mundo.

Muita gente analisa esse fenômeno concomitantemente com a popularização das redes sociais. São lideranças típicas deste meio. Mas por que tão brutais nas palavras e tão amarradas à ideia de violência e de ter de reagir de forma violenta?

Não ouso responder. Mas assisti um documentário que não é sobre política e me fez repensar a forma como entendo esses movimentos.

"O homem mais odiado do mundo", na Netflix, fala sobre a trajetória de Hunter Moore. Há 11 anos, ele criou o primeiro site de "revenge porn" do mundo.

Era uma plataforma onde pessoas subiam fotos eróticas de desafetos e colocavam todos os dados e links sociais das pessoas, como forma de vingança.

Depois se descobriu que quase metade do site era feita de gente que foi hackeada por um contratado de Hunter Moore. As pessoas nem tinham enviado a ninguém as fotos que tiraram.

O que isso tem a ver com política? A forma como Hunter Moore passou a ser idolatrado por milhares de fãs pelos Estados Unidos. Era celebrado, querido, adulado, apoiado efusivamente nas redes sociais.

E as vítimas? Ah, com certeza elas fizeram algo errado para merecer a exposição, diziam os fãs do site. Xingamentos e humilhações nas redes sociais e até pelo telefone viraram uma espécie de gincana.

As pessoas se divertiam muito destruindo a vida das vítimas e diziam isso com todas as letras. Chega um momento em que Hunter Moore promete uma novidade que levaria certamente alguém ao suicídio. Os fãs vão ao delírio. E são muitos, pessoas aparentemente comuns.

É esse clima que o bolsonarismo trouxe para a política, o da vilania pelas redes sociais. É algo que foi feito de forma planejada no trumpismo desde o Gamergate em 2014 e acabou chegando por aqui.

Funciona e contagia todos os espectros políticos a ponto de borrar a linha entre o que é embate político e o que é vilania pura e simples. A organização de exércitos virtuais não começa pela direita, mas pela esquerda. Eram os MAVs, Militância em Ambiente Virtual.

O que o bolsonarismo faz é baixar o nível do patrulhamento e do esculacho. Isso contagia até adversário. Quando militantes bolsonaristas ameaçaram meu filho de morte, militantes petistas comemoraram em suas contas pelo Twitter.

"Ninguém mandou ser filho de quem é", disse uma professora cujo nome prefiro não revelar. Ele tinha sete anos de idade.

Isso não é política, é um imenso fã-clube do Hunter Moore excitado e orgulhoso da própria vilania, sedento por alguém para destruir. Infelizmente, hoje isso pode ser capitalizado em poder político.