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Marco Antonio Villa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tomás, Bolsonaro não é o Brasil

Bruno Covas (PSDB) posa ao lado do filho Tomás Covas após deixar UTI do Hospital Síro-Libanês, em São Paulo - Reprodução/Instagram
Bruno Covas (PSDB) posa ao lado do filho Tomás Covas após deixar UTI do Hospital Síro-Libanês, em São Paulo Imagem: Reprodução/Instagram
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Marco Antonio Villa

Nasceu em 1955 na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Em Santo André passou parte da infância e da adolescência. Completou o Ensino Médio em São Paulo. Iniciou o curso de Economia mas acabou se formando em História na Universidade de São Paulo, onde também obteve os títulos de Mestre em Sociologia e Doutor em História. Foi durante trinta anos professor universitário. Atualmente possui um programa diário em seu canal YouTube que conta com mais de 105 MILHÕES de visualizações e mais de 622 MIL de seguidores. Suas entrevistas exclusivas no Canal YouTube Marco Antonio Villa - Blog do Villa chegam a alcançar quase 1 milhão de visualizações. É também comentarista do Jornal da Cultura e colunista da IstoÉ. Presente nas mídias sociais com mais de 2 milhões de seguidores além da presença em seu site www.cursosdovilla.com.br e o blog chamado "Blog do Villa". Com sua linguagem transversal, abrange não só o mundo acadêmico mas também um público heterogêneo e com interesse por história e política. Hoje é considerado um dos maiores conhecedores da História Política do nosso país com seus mais de 30 livros publicados, alguns dos quais tornaram- se best-sellers e referências bibliográficas para o estudo da História do Brasil nos séculos XIX,XX e XXI. Muitos de seus livros são citados em teses universitárias no Brasil, Europa e Estados Unidos. Autor de mais de 30 livros. Está prestes a lançar livro História Geral do Brasil.

Colunista do UOL

04/08/2021 08h47

Tomás, começo esta carta dando meus parabéns. Você foi firme na resposta que deu às agressões covardes de Jair Asmodeu Bolsonaro. Novamente, parabéns! Honrou a memória do seu pai. Bruno foi um homem público, muito mais do que um político.

Político temos muitos: dezenas, centenas. Homens públicos? Bem, aí a escassez é pantagruélica. Seu pai era uma esperança de renovação, de compromisso com o interesse público, de alguém que sabia da importância de conviver com a diversidade, de pensar a cidade de forma democrática, de ouvir a população, e ter pulso nas decisões a serem tomadas, mesmo aquelas que, a curto prazo, possam ser impopulares —mas que o futuro irá demonstrar que eram mais que necessárias.

Hoje, Tomás, vivemos uma conjuntura tenebrosa na política brasileira. Não pense que sempre foi assim. Não. Tivemos, ao longo do século 20, grandes momentos em que o país teve de escolher lideranças que, mesmo tendo projetos distintos para o país, eram comprometidas com os interesses populares e tinham formação republicana. A cultura, por exemplo, era sempre destacada por estes homens públicos. Sabiam que tínhamos um tesouro a preservar e outro a ser construído e redescoberto. A nossa história era referência nos discursos e na ação política. O Brasil era um país respeitado no mundo, em alguns quesitos era até referência.

O panorama atual é muito distinto. Temos —e você tem absoluta razão— um covarde na Presidência da República. Mas digo mais: temos um homem cruel, um psicopata, um genocida. Temos um cultor do nazifascismo.

Tudo isso, Tomás, é o nosso novo normal. A loucura está no poder. E o país foi aceitando. Os ataques diários ao Estado democrático de Direito foram sendo assimilados como algo natural. Acusações sem fundamento, mentiras, alucinações, delírios, acabaram se transformando em matéria-prima para as falas —não é possível considerá-las como discursos— que a cada dia chocam o país. Neste novo normal, muitas delas acabaram sendo ignoradas, como se a fala nazifascista, veja o absurdo, fosse componente do campo democrático. Afinal, é a voz do presidente da República. Contudo, e você foi no alvo quando reagiu a crueldade do Asmodeu, temos de dar um basta, não podemos perder a nossa capacidade de reação, de se chocar, de agir. Sim, de agir.

Você foi muito feliz quando escreveu: "Uma tristeza as agressões vazias do presidente contra meu pai. Não é certo atacar quem não está mais aqui para se defender. Meu pai sempre foi um homem sério e fez questão de me levar ao Maracanã no fim da sua vida para curtirmos seus últimos momentos juntos. Isso é amor! Bolsonaro nunca entenderá esse sentimento." Mas não é possível imaginar que o Asmodeu —responsável direto pelo genocídio de mais de 550 mil brasileiros e brasileiras— possa ter algum sentimento, possa ter amor. Não tem, assim como seus filhos e a caterva que o segue e o serve, como os fanáticos hitleristas.

Note que Bolsonaro é tão destituído de amor, que, no caso do futebol, não sabe a importância de amar um time. Bruno fez com você uma despedida, sabendo que poderia ter poucas semanas de vida. Foi ao Maracanã —de tantas lembranças maravilhosas para nós santistas— assistir a última partida do nosso time. Perdemos, mas isto é do futebol. Mas o seu pai ganhou. Ganhou pelo exemplo de compartilhar com você um momento que para ele era de alegria e —por ironia, trágica ironia— de adeus.

Tomás, continue assim. Firme em defesa dos princípios humanitários e democráticos, Vamos construir um novo Brasil. Amanhã vai ser outro dia. Nós não vamos desanimar, vamos lutar. Ah, ia esquecendo. Seguindo, claro, o que o seu pai sempre dizia: força, foco e fé. Forte abraço santista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL