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Marco Antonio Villa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Até quando o Brasil vai suportar Bolsonaro?

Bolsonaro durante o discurso na ONU - AFP - 21.set.2021
Bolsonaro durante o discurso na ONU Imagem: AFP - 21.set.2021
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Marco Antonio Villa

Nasceu em 1955 na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Em Santo André passou parte da infância e da adolescência. Completou o Ensino Médio em São Paulo. Iniciou o curso de Economia mas acabou se formando em História na Universidade de São Paulo, onde também obteve os títulos de Mestre em Sociologia e Doutor em História. Foi durante trinta anos professor universitário. Atualmente possui um programa diário em seu canal YouTube que conta com mais de 105 MILHÕES de visualizações e mais de 622 MIL de seguidores. Suas entrevistas exclusivas no Canal YouTube Marco Antonio Villa - Blog do Villa chegam a alcançar quase 1 milhão de visualizações. É também comentarista do Jornal da Cultura e colunista da IstoÉ. Presente nas mídias sociais com mais de 2 milhões de seguidores além da presença em seu site www.cursosdovilla.com.br e o blog chamado "Blog do Villa". Com sua linguagem transversal, abrange não só o mundo acadêmico mas também um público heterogêneo e com interesse por história e política. Hoje é considerado um dos maiores conhecedores da História Política do nosso país com seus mais de 30 livros publicados, alguns dos quais tornaram- se best-sellers e referências bibliográficas para o estudo da História do Brasil nos séculos XIX,XX e XXI. Muitos de seus livros são citados em teses universitárias no Brasil, Europa e Estados Unidos. Autor de mais de 30 livros. Está prestes a lançar livro História Geral do Brasil.

Colunista do UOL

23/09/2021 08h45

Não causou estranheza o pronunciamento de Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Reafirmou o que vem dizendo desde 1º de janeiro de 2019. Tudo indica que não só vai manter este posicionamento, como também deverá sinalizar à sua base de apoio que deverá aprofundar os ataques ao Estado Democrático de Direito e manter elevada a temperatura política. Acredita que desta forma - mantendo a iniciativa política - ganha tempo para continuar implementando o seu projeto de golpe de Estado.

O desastroso pronunciamento - além dos fatos correlatos, como o jantar na sarjeta, o "dedazo" tupiniquim e os dois membros da delegação, inclusive o ministro da Saúde, contaminados pela covid - não foi repudiado, até o momento, pela elite econômica brasileira. O silêncio pode ser interpretado como concordância, medo de represálias ou, até, absoluta indiferença.

Alguns ingênuos já começaram a espalhar que Bolsonaro poderá não ser candidato à reeleição. Seria um meio de negociar uma espécie de anistia aos crimes cometidos pela organização criminosa que chefia desde o início dos anos 1990.

Seria um meio de contemporizar - e desviar o foco - do desastroso pronunciamento na ONU e de suas consequências, bem como das futuras e inevitáveis ações golpistas. Tudo ficaria perdoado em troca de Jair Bolsonaro, a 1º de janeiro de 2023, voltar para o condomínio Vivendas da Barra.

Tal estratégia - tramoia seria mais adequado - deveria contar, obviamente, com a concordância do principal interessado: Bolsonaro. Aí que mora o problema. Achar que ele pode ser contido com ações que tergiversem o confronto político, desde o século passado tem se mostrado ineficaz.

O extremista se movimenta fora dos quadros do racionalismo. Considera que pode continuar avançando na obra negacionista - aí, entenda-se, no campo democrático-constitucional - quando não é combatido frontalmente. Entende como fraqueza, o que para os ingênuos possa ser considerado como tentativa de apaziguamento.

Jair Bolsonaro não pode continuar à frente da Presidência da República. Há uma contradição antagônica entre ele e a Constituição, a democracia, as liberdades democráticas. Ele produz mais que a instabilidade política permanente, traz o caos permanente. Não há negociação com alguém que conspira diuturnamente contra as instituições.

O episódio da ONU, o vexame mundial, é apenas mais um capítulo. Outros piores virão. É inevitável. Imagine o que farão Bolsonaro e seus sequazes, caso o "mito" tente a reeleição. E, não chegando ao segundo turno, o que acontecerá no último trimestre de 2022? É possível prever o acirramento do extremismo - não só em palavras, mas também em ações - tenha ainda neste ano diversas manifestações - e uma mais violenta que outra.

Neste cenário tenebroso é mais que necessário - e urgente - agir. Agir antes que seja tarde demais. Bolsonaro vai partir para o ataque e mobilizar seus capangas.

Os grandes problemas nacionais serão ignorados. Mais: vão se agravar pela inépcia governamental. É absolutamente redundante chamar este momento de tragédia anunciada. Teremos o "espírito de 7 de setembro" todo santo dia, até à exaustão.

Jair Bolsonaro quer ganhar tempo. Quer se manter na Presidência até o início de 2022. Aí, sob o argumento que é um ano eleitoral, vai aproveitar a desmobilização das forças democráticas - e o "polianismo" - para combater frontalmente as instituições.

Ele sabe que não tem a mínima chance de reeleição. Os ataques às urnas eletrônicas fazem parte desta estratégia. Inclusive, vale registrar, ele vai voltar ao tema junto com os quadrilheiros que o seguem.

Ficar no compasso de espera em situações políticas que fragilizam às instituições democráticas é a pior estratégia. Leva vantagem que tem a iniciativa e, mais ainda, quando detém o poder de Estado, como é o caso de Bolsonaro.

Se nada for feito - e o ordenamento legal permite constitucionalmente interromper este pesadelo - caminhamos para um golpe de Estado. Não é demais lembrar: Bolsonaro nunca escondeu que deseja ensanguentar o Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL