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Marco Antonio Villa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hitler está vivo. E no Brasil

Heinrich Hoffmann/Archive Photos/Getty Images
Imagem: Heinrich Hoffmann/Archive Photos/Getty Images
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Marco Antonio Villa

Nasceu em 1955 na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Em Santo André passou parte da infância e da adolescência. Completou o Ensino Médio em São Paulo. Iniciou o curso de Economia mas acabou se formando em História na Universidade de São Paulo, onde também obteve os títulos de Mestre em Sociologia e Doutor em História. Foi durante trinta anos professor universitário. Atualmente possui um programa diário em seu canal YouTube que conta com mais de 105 MILHÕES de visualizações e mais de 622 MIL de seguidores. Suas entrevistas exclusivas no Canal YouTube Marco Antonio Villa - Blog do Villa chegam a alcançar quase 1 milhão de visualizações. É também comentarista do Jornal da Cultura e colunista da IstoÉ. Presente nas mídias sociais com mais de 2 milhões de seguidores além da presença em seu site www.cursosdovilla.com.br e o blog chamado "Blog do Villa". Com sua linguagem transversal, abrange não só o mundo acadêmico mas também um público heterogêneo e com interesse por história e política. Hoje é considerado um dos maiores conhecedores da História Política do nosso país com seus mais de 30 livros publicados, alguns dos quais tornaram- se best-sellers e referências bibliográficas para o estudo da História do Brasil nos séculos XIX,XX e XXI. Muitos de seus livros são citados em teses universitárias no Brasil, Europa e Estados Unidos. Autor de mais de 30 livros. Está prestes a lançar livro História Geral do Brasil.

Colunista do UOL

19/11/2021 14h13

Na última terça-feira foi apresentada em uma rádio através de um suposto jornalista uma receita para o Brasil enfrentar a crise econômica: "É só assaltar todos os judeus que a gente consegue chegar lá. Se a gente matar um monte de judeus e se apropriar do poder econômico dos judeus, o Brasil enriquece. Foi o que aconteceu com a Alemanha no pós-guerra".

É, sem tirar nem pôr, puro nazismo. É como se estivéssemos assistindo um membro do Partido Nazista dissertando sobre a necessidade da "limpeza étnica." A primeira parte da argumentação tem como inspiração o "Mein Kampf" com tinturas de "O Judeu Internacional", de Henry Ford, sem esquecer "Os Protocolos dos Sábios do Sião". Construíram a falácia de que os problemas econômicos da Alemanha, especialmente após a 1ª Guerra Mundial, eram responsabilidade dos judeus.

No Brasil da terceira década do século 21, sob a égide da Constituição mais democrática da nossa história, é proposto o extermínio dos brasileiros de origem judaica. Simples assim, poderia dizer um extremista bolsonarista.

Não satisfeito, o suposto jornalista afirma, sem corar, que a reconstrução da Alemanha se deu com a expropriação dos bens dos judeus, o que é de uma ignorância pantagruélica. A Alemanha Ocidental —a República Federal da Alemanha— deve sua reconstrução, entre outros fatores, ao Plano Marshall. Não há qualquer relação com o Holocausto.

Se não existe qualquer explicação plausível no campo histórico, a defesa do extermínio dos brasileiros de origem judaica representa uma grave violação da Constituição e do nosso ordenamento legal. Eu esperava uma forte reação de todos os democratas. Ledo engano. Foi apresentado um pedido meramente formal de desculpas. Disse que foi um "comentário infeliz", que foi "mal-entendido" e que "não foi minha intenção ofender a ninguém." Pura hipocrisia! Mal-entendido? A fala foi claríssima, tão clara como a luz do sol do meio-dia. Um SS se sentiria representado pelo suposto jornalista.

Mas e as reações? Dois ou três comunicados de entidades judaicas protestando, uma ou outra manifestação, e só. Nada mais. Foi considerada pela empresa onde foi emitido o comentário nazista como "direito de opinião." Alto lá! O artigo 220 não garante ataques racistas e antissemitas. Não, absolutamente não!

Na Alemanha, os nazistas usaram dos direitos da Constituição de Weimar para impor a ditadura. Os nazistas tropicais usam do mesmo estratagema. Não levar a sério é jogar água no moinho do extremismo. É banalizar a barbárie. É dar estatuto de "opinião" ao extermínio de comunidades indesejáveis para os facínoras que estão no poder.

Ainda é tempo para expressar o repúdio aos defensores do Holocausto. Hoje querem exterminar os brasileiros de origem judaica. E amanhã, quem vão assassinar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL