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Discurso extremado de Bolsonaro migrou voto antiPT para a zona leste de SP

12.mai.2016 - A frase "Fora Temer" é escrita em muro próximo ao Masp, em São Paulo. O local conta com uma arte de um casal "coxinha" e "petralha" simbolizando a diferença de ideias na crise política do país - Nacho Doce/Reuters
12.mai.2016 - A frase "Fora Temer" é escrita em muro próximo ao Masp, em São Paulo. O local conta com uma arte de um casal "coxinha" e "petralha" simbolizando a diferença de ideias na crise política do país Imagem: Nacho Doce/Reuters
Marcos Silveira

Marcos Silveira é Diretor Executivo da Datapedia (www.datapedia.info), negócio social que transforma dados em inteligência para política e Governo. Formado em Gestão Pública pela FGV-EAESP e especialista em Gestão Pública e Liderança pelo Master CLP, trabalhou com consultoria para prefeituras, governos estaduais, empresas e ONGs. Foi finalista do prêmio Veja-se Inspire em 2017 e faz parte da rede de Talentos da Educação da Fundação Lemann. Empreendedor cívico da Rede de Atuação pela Sustentabilidade – RAPS e membro do Movimento AGORA! Sobre a coluna Um espaço para transformar dados em inteligência para política e para gestão pública. Fazer a ponte de dados para informação e informação para conhecimento. De maneira simples, didática e visual.

Colunista do UOL

10/03/2020 04h00

Polarização política. O termo que não sai dos jornais parece ecoar para além de 2018.

Também foi muito utilizado nas eleições de 2014, mas será que os fenômenos de polarização de 2014 e 2018 foram semelhantes? Vamos analisar os votos das disputas presidenciais obtidos na capital paulista.

Como ponto de partida, a comparação entre a concentração de votos em opostos ideológicos (esquerda versus direita) nos segundos turnos de 2014 e 2018, disputados entre Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) e Jair Bolsonaro (ex-PSL e agora sem partido) e Fernando Haddad (PT).

Foram utilizados dados estatísticos, em que a polarização pode ser traduzida com o desvio padrão de resultados por locais de votos. Quanto maior o desvio padrão, mais concentrados os resultados de votação por locais de votação.

Resultado: O segundo turno em São Paulo de 2014 foi mais polarizado do que em 2018

A análise de dados mostra que o segundo turno de 2014 disputado entre Aécio e Dilma foi, na capital paulista, mais polarizado do que o segundo turno entre Bolsonaro e Haddad (PT) em 2018, dado que o desvio padrão observado em 2014 foi de 15,3; em 2018, de 11,8.

Segundo turno de Aécio e Dilma 2014 em São Paulo

Aécio teve 4,1 milhões de votos em São Paulo, totalizando 63,83% dos votos, enquanto Dilma teve 2,3 milhões de votos e 36,17% do total.

Explore o mapas

Aécio Neves | PSDB e Dilma Rousseff | PT - Votação de 2º Turno em São Paulo-SP 2014

Fonte: TSE e trabalho de dados da Plataforma Eleições - Datapedia

Correlação com renda em 2014

As maiores votações de Aécio aconteceram nos locais mais ricos do município. Essa relação impressiona ao se observar o mapa com renda e resultados proporcionais de votos.

Quanto mais alta a renda, maior foi a concentração de votos para Aécio.

Quanto menor a renda, maior foi a votação para Dilma.

Aécio Neves | PSDB - Votação de 2º Turno em São Paulo-SP e mapa por renda

Fonte: TSE e trabalho de dados da Plataforma Eleições - Datapedia

Melhores de Aécio

93,5% local de votação - Jardim Europa (região nobre, Jardins)

91,5% local de votação - Vila Nova Conceição (região nobre próxima ao parque Ibirapuera)

90,8% local de votação - Jardim Paulistano (região nobre, Jardins)

Piores de Aécio

26,50% local de votação - Jardim Gaivotas (zona sul, perto da represa Bilings)

26,89% - local de votação - Cantinho do Céu (zona sul, perto da represa Bilings)

27,52% - local de votação - Colônia (extremo zul de São Paulo, com áreas rurais)

Segundo turno de Bolsonaro e Haddad 2018 em São Paulo

Bolsonaro teve 3,7 milhões de votos em São Paulo, totalizando 60,38% dos votos, enquanto Haddad teve 2,4 milhões de votos e 39,62% do total.

Explore o mapa

Jair Bolsonaro | PSL e Fernando Haddad | PT - Votação de 2º Turno em São Paulo-SP 2018

Fonte: TSE e trabalho de dados da Plataforma Eleições - Datapedia

Além de um desvio padrão menor do que em 2014, os números de Bolsonaro evidenciaram alterações significativas em comparação à Aécio, como candidatos representando a direita.

Na comparação, Bolsonaro teve menos votos em regiões ricas e mais votos em regiões com menos renda

Os limites máximos e mínimos variam menos: 85,3% a 30,5% (Bolsonaro) contra 93,5% a 26,50% (Aécio).

Veja a simulação entre as votações de 2º turno de Aécio 2014 e Bolsonaro 2018.

Aécio Neves | PSDB 2014 e Jair Bolsonaro | PSL 2018 - Votação de 2º Turno em São Paulo-SP

Fonte: TSE e trabalho de dados da Plataforma Eleições - Datapedia

Os locais de votação de limites máximos de Bolsonaro foram deslocados para bairros de renda alta na zona leste (Vila Gomes Cardim, Anália Franco e Tatuapé), se comparados aos locais de votação de limites máximos de Aécio.

Jair Bolsonaro | PSL 2018 - Votação de 2º Turno em São Paulo-SP

Fonte: TSE e trabalho de dados da Plataforma Eleições - Datapedia

Melhores Bolsonaro

85,29% - local de votação na Vila Gomes Cardim (zona leste)

84,33% - local de votação no Jardim Anália Franco (zona leste)

83,59% - local de votação no Tatuapé (zona leste)

Piores Bolsonaro

30,50% - local de votação em Paraisópolis (zona sul)

31,01% - local de votação no Parque Residencial Vera Cruz (zona sul)

31,03% - local de votação no Paraisópolis (zona sul)

Conclusão: o discurso extremado de Bolsonaro rompeu as barreiras econômicas das camadas sociais de São Paulo-SP

Ao se colocar como um candidato conservador de extrema-direita e proferir discursos politicamente incorretos, Bolsonaro acabou acertando a base da pirâmide.

Perdeu votos na camada mais rica, porém ganhou penetração na base de eleitores com menos renda.

Como efeito, territórios distintos em termos de renda acabaram reduzindo suas disparidades na escolha de um candidato para presidência. A votação foi mais equânime e menos concentrada.

Por isso, cabe refletir se a mesma polarização política pode caracterizar fenômenos distintos.

Em 2014, a polarização foi estratégia eleitoral, pegando carona na desigualdade econômica que São Paulo possui.

Porém, acredito que em 2018 não tivemos polarização como discurso eleitoral, mas sim uma segregação ideológica fundada no radicalismo e na intolerância nas discussões político-partidárias.

Pego emprestado o conceito da química para traduzir a imagem que me veio à cabeça: foi criada uma mistura heterogênea. Algo semelhante com o que ocorre ao se tentar diluir óleo em água.

No próximo artigo, farei a mesma análise com outras capitais.

Marcos Silveira