PUBLICIDADE
Topo

Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gesto radical de Aziz na CPI da Covid tenta mostrar que mentira tem limite

Pedido de prisão de Dias tem peso político enorme e mostra que a CPI não deu em pizza, como muitos previam - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Pedido de prisão de Dias tem peso político enorme e mostra que a CPI não deu em pizza, como muitos previam Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Conteúdo exclusivo para assinantes
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

07/07/2021 18h43

Pela primeira vez, CPI da Covid dá voz de prisão a um depoente. Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, foi acusado de mentir à comissão. O crime seria falso testemunho. Pode não resultar em encarceramento (até porque prender pessoas não resolve o problema), mas o peso político é enorme.

Outros senadores — inclusive os "independentes", como Otto Alencar (PSD-BA) — pediram que Omar Aziz (PSD-AM) revisse a decisão. Sustentaram que outras testemunhas também mentiram e não receberam voz de prisão. O relator Renan Calheiros (MDB-AL) se colocou ao lado do presidente da CPI.

"Tenho pedido respeito e tenho sido desrespeitado. Não aceito que a CPI vire chacota. Ele está preso por mentir. Vai estar detido. Pelo Brasil! Todo depoente que achar que pode brincar terá o mesmo destino", afirmou o presidente da comissão antes de fechar a sessão.

Os áudios revelados pela CNN mostram que o encontro de Dias com Dominghetti no restaurante do shopping para negociar vacinas superfaturadas não foi casual, como sustentou o ex-diretor durante toda a sessão. "Preciso que Dias ligue para o CEO, o presidente da Davati", diz Dominghetti ao coronel Marcelo Blanco, assessor de Dias. "Ele me garantiu que vai ligar. É aguardar se ele vai fazer essa ligação. É o que está faltando", afirma Blanco a Dominghetti.

Aziz vem alertando sobre a gravidade de mentir na CPI. O senador do Amazonas perdeu o irmão para a covid-19 em janeiro e revelou ter perdido nesta terça (6) um grande amigo. Sintetiza, assim, o sentimento de muitos brasileiros, uma mistura de luto e revolta. "Foi um freio de arrumação", afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE).

CPI não terminou em pizza

A CPI não deu em pizza, como muitos previam. Muito pelo contrário. Fez com que conhecêssemos a gestão da crise sanitária a tal ponto que não é possível escapar das evidências por meio de fake news ou de "narrativas", palavra vastamente usada por senadores da "tropa de choque do governo" que querem justificar o injustificável.

É fato o desprezo pelas vacinas que poderiam ter sido compradas diretamente do fabricante, como a Pfizer, a Moderna e a própria CoronaVac. É concreto que o Ministério da Saúde, com esse time de secretários e militares, não tem competência para lidar com a gestão da crise sanitária, e, por isso, deixou morrer milhares de brasileiros. O ministério da Saúde e o governo federal não se preocuparam com a testagem em massa, tampouco com a garantia de oxigênio em Manaus ou com a compra de vacina para compor com qualidade um Plano Nacional de Imunização, de maneira coordenada.

Ainda estamos de luto. Mas, passados tantos meses desde o início da pandemia de covid-19 no país, e diante do aumento exponencial de mortes sem qualquer atitude concreta de contenção por parte da liderança nacional do Brasil à falta de oxigênio, ao negacionismo público do governo federal, ao boicote oficial à vacina, nosso luto amadureceu. Duras vias.

Agora enxergamos um pouco mais profundamente, com um pouco mais de complexidade. Começamos, nesta altura, a compreender outras questões: o que a pandemia sob um governo negacionista fez com os sobreviventes? O que finda com quem morreu? Se somarmos todas as mortes evitáveis, que futuro é esse que perdemos?

É a densidade das perdas — todas elas — que estamos agora começando a contabilizar. A CPI da Covid nos ajuda a nomear os responsáveis pelo caos que vivemos. Há responsabilidade nesta tragédia do ex-diretor Roberto Dias, do coronel Elcio Franco, ex-secretário executivo do ministério da Saúde, do ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido).

Aos poucos, a população passa a perceber que, caso o país saia da crise sanitária, social e econômica, não terá sido por conta das ações do governo. A expectativa de melhora começa a se descolar de Bolsonaro. Parece que nem o auxílio emergencial prorrogado poderá diminuir o desgaste do governo.

As Forças Armadas também não escaparão da corrosão de confiança: ficou evidente que os militares não têm competência para lidar com a gestão de um país, muito menos sob uma pandemia em um governo negacionista. A nota do ministério da Defesa publicada depois da voz de prisão — assinada pelos chefes das Forças Armadas — em que dizem se sentir desrespeitadas, é um recibo disso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL