PUBLICIDADE
Topo

Maria Carolina Trevisan

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"A Igreja não consegue encarar o amor humano", diz o escritor João Silvério

Conteúdo exclusivo para assinantes
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

10/10/2021 15h35

Para entender o problema sistêmico de violência sexual na Igreja Católica, é preciso mergulhar nos mitos que fundam o cristianismo e compreender que a castração da sexualidade influencia na ocorrência de abusos. "A sexualidade é um elemento que a Igreja usa para manter o seu cordão umbilical [preso aos fiéis] e ao mesmo tempo é o seu ponto fraco", afirma o escritor, cineasta e ex-seminarista João Silvério Trevisan, autor de "Devassos no Paraíso" (Editora Objetiva).

Para o escritor, a Igreja criou um paradoxo difícil de superar, que começa com o pecado original. Na mitologia cristã, Adão e Eva habitavam o jardim do Éden junto a Deus. Ao morder a maçã do conhecimento, interditado por Deus, o primeiro casal humano pecou e foi expulso para o "mundo real". O pecado original simboliza o mal que entra no mundo por meio da imperfeição dos homens.

"Portanto, a mordida reveladora configurou o primeiro pecado (signo da castração) e trouxe a consciência da nossa imperfeição constituinte, que passa de pais para filhos. Prometendo a possibilidade de voltar ao tempo paradisíaco (anterior ao pecado-castração), a narrativa cristã se inscreveu no patamar redencionista de maneira radical: o Criador Supremo entregou a vida do seu filho como sacrifício para nos redimir do pecado original — aquele fracasso implicado em nossa indelével castração."

O trecho faz parte do capítulo inédito sobre a Igreja na nova edição de "Seis balas num buraco só — a crise do masculino" (Cia das Letras), de João Silvério Trevisan, que será lançado em novembro.

Trata dessa perspectiva em que o ser humano já nasce pecador. Nessa dinâmica entre o pecado, a culpa e a castração se insere a sexualidade para a Igreja Católica. Não se considera o prazer sexual, a concupiscência, para a Igreja, o sexo serve para procriar. A "pérola das virtudes" é a castidade. O símbolo principal da castidade na mitologia cristã é a Virgem Maria, mãe de Jesus, "que concebeu o filho sem passar pelo ato pecaminoso da conjunção carnal, portanto sem sofrer concupiscência".

Por isso, na visão do escritor, ao silenciar sobre o que é inerente ao ser humano, ocorre o fenômeno descrito pela psicanálise como "retorno do recalcado" quando tudo aquilo que é abafado, contido, barrado, volta de forma enviesada. "Há uma distância brutal entre aquilo que se propõe como teoria e aquilo que é vivenciado na prática da imperfeição humana. Nós somos imperfeitos por natureza", afirma.

"A Igreja nunca vai conseguir encarar a sua sexualidade. Esse é o grande problema da Igreja Católica", afirma o escritor. "Ela está contra toda a natureza humana. A Igreja não consegue encarar o amor humano. O amor humano é um território espantosamente importante, e espantosamente cheio de imperfeições e de detalhes. Não adianta nenhuma solução simplista de perdoar, porque isso não muda em nada a psique humana."

É um ciclo infinito em que a pessoa é abençoada pelo perdão na confissão, peca novamente e se submete outra vez à culpa. "É esse desejo recalcado que acaba explodindo como a lava de um vulcão. A Igreja não está apta a entender o amor humano. Seu projeto de amor é artificial. Os abusos na Igreja ocorrem quando a sexualidade cobra seu preço."

Casos de abuso vêm à tona por meio da imprensa ou da Justiça. No livro de João Silvério há um trecho que remete à história do ex-monsenhor Tony Anatrella, da Igreja Católica Francesa. Identificado com a ala ultraconservadora da Igreja, Anatrella é um nome conhecido entre os "especialistas antigênero" e era ligado à Arquidiocese de Paris. Em seus artigos e palestras, condena a "ideologia de gênero" e a homossexualidade, se opondo a qualquer perspectiva de direitos. Tudo em nome da defesa da família.

Durante uma década, os escândalos sexuais envolvendo Anatrella foram silenciados. Os primeiros casos, de 2005, indicam que ele submetia seus pacientes, seminaristas e padres, à cura da homossexualidade. Para isso, cometia abusos. "É uma historia emblemática porque abre todo o jogo: é a própria raposa tomando conta do galinheiro", diz Silvério. "Tony Anatrella é um exemplo claro de retorno do recalcado em grande estilo. O fantasma da homossexualidade assombra a Igreja."

Os casos de assédio sexual cometidos por clérigos são recorrentes e estruturais. Um relatório revelado na quinta (5) por um comitê independente de investigação sobre abusos sexuais cometidos por clérigos e membros leigos da Igreja Católica na França revelou que — pelo menos — 330 mil crianças foram vítimas de agressores sexuais da Igreja nos últimos 70 anos. O documento aponta também que membros da Igreja acobertaram as violações e encobriram os crimes.

Uma semana antes, o UOL revelou o caso do padre Ernani Maia dos Reis, que cometeu violência sexual e assédio sexual contra monges em Monte Sião (MG). A apuração do núcleo investigativo também resultou no documentário "Nosso Pai", lançado por MOV, o selo de produções audiovisuais do UOL.

Um dia depois da publicação da reportagem, o papa Francisco anunciou o desligamento de Ernani Maia dos Reis da Igreja Católica. Na terça (5), a Polícia Civil abriu inquérito para investigar o ex-padre.