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Ei, governo: que tal converter chineses?

O secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, embaixador Fabio Mendes Marzano, em evento em Budapeste - Jamil Chade/UOL
O secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, embaixador Fabio Mendes Marzano, em evento em Budapeste Imagem: Jamil Chade/UOL
Maurício Ricardo

Maurício Ricardo é jornalista, cartunista e empresário no segmento da Educação. Formado em História, é um dos produtores pioneiros de conteúdo multimídia para a Internet brasileira. É criador do premiado site de animações Charges.com.br, lançado em fevereiro de 2000. Em 2019 migrou suas análises políticas, no formato vlog, para o canal de YouTube "Fala, M.R.". Lá, compartilha suas visões sobre política, cotidiano, música e tecnologia, que ganham também versões em texto nesta coluna.

Colunista do UOL

28/11/2019 16h21

O que um governo deve fazer se tiver como principal base de sustentação a família conservadora cristã e mesmo assim a oposição estiver dando trabalho? Ora, como os antigos cruzados, é só promover a conversão de infiéis e... ampliar o eleitorado!

Exageros à parte, há algo de metafísico no reino do nosso Estado laico. Um representante do governo brasileiro assumiu, em discurso na Hungria, que uma das principais mudanças conduzidas por Bolsonaro neste início de governo foi "colocar a religião no processo de formulação de políticas no Brasil", o que claramente viola a Constituição Federal.

Disse mais (e pior): que a liberdade religiosa não é somente o direito de praticar uma religião, mas também o de "tentar converter aqueles que não têm uma. Não pela força, mas os mostrando a verdade, a verdade real".

"Verdade real". Jesus amado!

Alarmante

Isso dito num púlpito de Igreja seria algo perfeitamente normal e aceitável. Mas na Hungria, hoje sob o comando do primeiro-ministro Viktor Orbán (um Bolsonaro com esteroides que está sendo processado pela União Europeia por atentado ao Estado Democrático de Direito) é um absurdo alarmante.

O discurso de Fabio Mendes Marzano, secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, foi proferido ontem na Conferência Internacional contra a Perseguição Cristã. Uma agenda relevante, sim, quando se pensa em países com grande tensão religiosa. Mas não é o caso do Brasil.

Aqui, quando um representante do governo fala em "converter" quem não tem religião, "mostrando a verdade", a que verdade ele se refere?

Se for a cristã, como ficam as outras "verdades metafísicas" professadas pelo budismo, hinduísmo e umbandismo, entre tantas outras correntes?

Estado laico

Como fica a laicidade do Estado? Combater a perseguição religiosa, como política externa de Estado, é um ato louvável. Mas ela há de ser inclusiva, como se espera de quem respeita a nossa Carta Magna. Em diferentes lugares do Globo as vítimas de perseguição religiosas mudam. Podem ser islâmicas, judias, budistas. Sofrer perseguição não é exclusividade de um único credo.

Diante disso, o tema "conversão", no nosso Estado laico, é ainda mais delicado: fica subentendido, pelas falas do governo e pelo próprio evento em que que o secretário estava, que ele se referiu à verdade cristã.

País cristão

Ora, num país onde a maioria esmagadora da população já está "convertida" ao cristianismo e os diferentes credos (com alguns casos isolados de intolerância) têm total liberdade de manifestação, não há muito campo para uma possível ação missionária governista.

Sugiro ao secretário Marzano tentar converter o chineses. Claro! China! Nosso principal parceiro comercial e maior mercado de almas não convertidas do planeta.

O mais provável é que Marzano falhe e acabe amargando uma boa temporada em um dos "Campos de Reeducação" do país, sofrendo tortura e lavagem cerebral. Mas são os ossos do ofício.

A História do cristianismo é marcada pelo sacrifício de mártires.

Bora ser mais um, secretário?