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Uma sonata para Sérgio Camargo

Sergio Camargo, presidente da Fundação Palmares - Sergio Camargo, presidente da Fundação Palmares
Sergio Camargo, presidente da Fundação Palmares Imagem: Sergio Camargo, presidente da Fundação Palmares
Maurício Ricardo

Maurício Ricardo é jornalista, cartunista e empresário no segmento da Educação. Formado em História, é um dos produtores pioneiros de conteúdo multimídia para a Internet brasileira. É criador do premiado site de animações Charges.com.br, lançado em fevereiro de 2000. Em 2019 migrou suas análises políticas, no formato vlog, para o canal de YouTube "Fala, M.R.". Lá, compartilha suas visões sobre política, cotidiano, música e tecnologia, que ganham também versões em texto nesta coluna.

Colunista do UOL

13/12/2019 18h12

(Todas as palavras, expressões e frases entre aspas são reproduções exatas de postagens de Sérgio Camargo em seu perfil no Facebook)

É noite na casa de Sérgio Camargo, o negro que Bolsonaro quer ver presidindo a Fundação Palmares. No seu playlist de clássicos, escolhe uma sonata de Beethoven. "Um pouco de música opressora alemã para negro de direita, antes de dormir", pensa, com um leve sorriso de alívio.

As primeiras notas melancólicas de piano começam a fluir, suaves, em seus fones de ouvido. Por um instante ele se deixa envolver pela música e consegue esquecer os "afromimizentos" de esquerda que conseguiram adiar sua nomeação.

Camargo está esperançoso: o presidente da República postou no Twitter sua determinação de reconduzi-lo ao cargo assim que derrubar a ordem judicial que suspendeu a nomeação. Ele sabe que a luta é árdua: por décadas a "negrada da lacrolândia" vem iludindo o povo com a falsa ideia de que existe racismo no Brasil.

"Racismo real existe nos Estados Unidos", ele murmura baixinho, a própria voz encoberta pelo minueto com trio do segundo movimento. "A negrada daqui reclama porque é imbecil", bufa. E percebe que não está no clima da Sonata ao Luar quando o tema principal do terceiro movimento, com sua série de acordes ascendentes e rápidos, começa a alimentar sua ansiedade.

Chopin! Resolve, num estalo. É isso que ele quer ouvir agora, na interpretação da "linda virtuose russa" Khatia Buniatishvili. Com toques rápidos na tela, localiza o canal da jovem. A capa do álbum, que ele amplia com um movimento de pinça, mostra Khatia trajando um vestido escuro de alça, bastante decotado. Seus cabelos levemente ondulados soprados pelo vento. O olhar é desafiador e sensual. O batom vermelho contrasta com a pele alva. Que mulher!

Ah, se todo negro tivesse acesso à alta cultura! Imagine o quanto Camargo poderá fazer por sua etnia quando - e se - chegar ao comando da fundação criada para valorizar as nossas raízes afro-brasileiras!

"A esquerda costuma dizer que tento ser o que não sou quando ouço música erudita", remói, ainda com os olhos colados nos lábios de Khatia. "O que não sou é o que eles querem!", chega a dizer em voz alta, como se pudesse ser ouvido pela russa. "Não sou preto que busca drogas na biqueira, que admira Mano Brown e vai às ruas para 'celebrar' o nefasto Dia da Consciência Negra!".

A trilha sonora de suas divagações já é o tema em mi menor do Allegro maestoso quando conclui seu breve manifesto. Camargo fecha os olhos, mas a música é tão poderosa e a performance tão precisa que ele chega a enxergar os dedos ágeis e finos da russa.

Dedos brancos. O que o trás de volta à questão da cor da pele e toda a hipocrisia criada em torno desta grande fantasia esquerdista que é o racismo no Brasil. Há quem chegue a se passar por negro para obter benefícios, lamenta. "Marielle não era negra, era parda. Mas autodeclarava-se negra por conveniência política, para reforçar o perfil de 'vítima' e 'oprimida', o que nunca foi".

Sérgio Camargo odeia Marielle. E passou a odiar mais ainda depois que a extrema imprensa e desafetos políticos se uniram para tentar associar seu mentor, Jair Bolsonaro, ao assassinato da ex-vereadora. "É inacreditável que tenham tentado ligar nosso presidente ao assassinato dessa mulher sem valor", rumina entredentes. "É preciso que Marielle morra, só assim ela deixará de encher o saco".

A última expressão, o surpreende. O uso de tal palavreado não é de seu feitio. Camargo sabe que não pode se deixar contaminar pelo ódio que recebe dos adversários. "A esquerda é para a raça negra o mesmo que o parasita para seu hospedeiro. Livrar-se da esquerda é vital para o negro e seu futuro", conclui, ciente do enorme papel que terá nessa missão.

Ele não está só. E esta certeza, somada à beleza da música de Khatia, são os alentos que o conduzem suavemente ao sono. Não sem antes formular uma quase oração, um último lampejo rimado de gratidão:

"Boa noite opressora aos amigos da direita conservadora!"