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Flávio usou detentos para fabricar chocolate. E aqui faltou o sobrenome

Maurício Ricardo

Maurício Ricardo é jornalista, cartunista e empresário no segmento da Educação. Formado em História, é um dos produtores pioneiros de conteúdo multimídia para a Internet brasileira. É criador do premiado site de animações Charges.com.br, lançado em fevereiro de 2000. Em 2019 migrou suas análises políticas, no formato vlog, para o canal de YouTube "Fala, M.R.". Lá, compartilha suas visões sobre política, cotidiano, música e tecnologia, que ganham também versões em texto nesta coluna.

Colunista do UOL

23/12/2019 19h07

Não é notícia nova, mas é verdade: Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão, anunciou no seu Twitter que detentos do sistema prisional em seu estado produziram chocolates, que foram distribuídos gratuitamente em creches e escolas no Dia das Crianças.

É claro que se fosse hoje o bom senso e a ética jornalística me obrigariam a esclarecer, já no título, de qual Flávio estou falando. Especialmente quando um outro político chamado Flávio, o filho mais velho do presidente Bolsonaro, vê sua loja de chocolate enfiada no escândalo das rachadinhas do qual tenta se esquivar há mais de um ano.

Escondendo o sobrenome

No contexto do noticiário, entretanto, a teoria conspiratória de que parte da imprensa estaria escondendo o sobrenome Bolsonaro de suas manchetes para poupar o presidente da República é no mínimo inocente. O "Caso Flávio" é um escândalo nacional. Todos os dias os desdobramentos do caso ganham espaço nobre nas capas dos portais e jornais. Exatamente aqueles que fazem perguntas difíceis e que Bolsonaro boicota, chamando de "extrema imprensa".

Veja o caso deste título na Folha: "R$ 16 mil: Flávio diz que PM pagou seu boleto pois banco já estava fechado". A matéria é ilustrada com um vídeo que estampa na capa o rosto do senador. O texto é repleto de menções a Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro (assim, com sobrenome, incluído). Na aba "Relacionadas", notícias e mais notícias sobre o chocolategate de Flávio. Ora citando nome completo, ora o primeiro nome, de acordo com a decisão do editor e, creio, seguindo os preceitos da ética jornalística e do Manual de Redação.

Momento delicado

Neste momento, no Brasil e no mundo, a imprensa virou um incômodo que os políticos tentam tirar da frente. Eles já têm acesso direto à sua militância, através das redes sociais. Muito melhor falar diretamente com fãs já convertidos do que ter que responder a perguntas incômodas de repórteres. As lives semanais do presidente e o tratamento grosseiro com que ele se dirige aos jornalistas são uma mostra disso.

Ao alimentar esse boato infame (o de que a imprensa estaria "escondendo" o sobrenome Bolsonaro), a fragmentada militância da esquerda brasileira erra. Na linha de tiro estão veículos que vêm denunciando os desmandos do bolsonarismo e sofrendo boicote aberto por isso. Colocar em xeque a seriedade deste trabalho é fazer exatamente o jogo do presidente: é esvaziar a credibilidade do jornalismo e vender-se como detentor exclusivo da verdade e única fonte confiável de informação.

Ninguém ganha com isso.