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OPINIÃO

Audiência de novela não é ciência, e "Pantanal" está aí para mostrar isso

Jove (Jesuita Barbosa) e Juma (Alanis Guillen) viverão paixão arrebatadora na segunda fase de 'Pantanal' Imagem: TV GLOBO/DIVULGAçãO
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Mauricio Stycer

Colunista do UOL

14/04/2022 07h01

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Em 10 anos, as audiências das novelas das 21h da Globo foram de uma média de 41 pontos, em "Fina Estampa" (2011-12), para 22 pontos, em "Um Lugar ao Sol" (2021-22). As tramas do horário mais nobre da emissora ficaram abaixo do patamar de 30 pontos, pela primeira vez, com "Babilônia" (2015).

Há várias formas de analisar a audiência de uma novela, e por isso há tanta confusão a respeito. Apesar de envolver números e estatísticas, não é uma ciência exata. Longe disso.

Muito se fala em fuga de audiência e publicidade para as plataformas de streaming e outras mídias. Também se fala na romaria de grandes atores em direção à Netflix & Cia. E há quem defenda que o gênero novela está em decadência, acossado pelas séries. São bons argumentos, mas não explicam tudo.

Não estou entre os que acreditam nesta caminhada ladeira abaixo rumo ao fundo do poço das novelas do horário nobre. Há novelas e novelas. Por trás dos números, há muitos fatores humanos em jogo.

Olhando os dados destes últimos dez anos, vale a pena se deter sobre o fenômeno que foi "A Força do Querer". Exibida entre abril e outubro de 2017, a novela de Gloria Perez registrou média de audiência em torno de 35,5 pontos, em São Paulo. Isoladamente, esse dado não quer dizer muita coisa. Mas analisando em perspectiva, entende-se a importância do que ocorreu.

Os números da trama foram melhores do que os das oito novelas anteriores, incluindo "Salve Jorge" (2012-13), da própria Gloria Perez. Mais importante, "A Força do Querer" elevou a audiência em mais de oito pontos em relação à "A Lei do Amor" (2016-17), que havia sido exibida imediatamente antes e terminou com média de 27,1 pontos.

É este salto de aproximadamente oito pontos de uma novela para a outra que merece atenção. Este crescimento indica que há muitas variáveis envolvidas na decisão de assistir novelas. E que o caminho rumo ao abismo não é sem volta.

Nos últimos cinco anos houve outras oscilações significativas também. Dos 38 pontos de "O Outro Lado do Paraíso" (2017-18), de Walcyr Carrasco, para os 33 de "Segundo Sol" (2018) e, em seguida, os 27,5 pontos de "O Sétimo Guardião" (2018-19). Veio, então "A Dona do Pedaço" (2019), do mesmo Carrasco, e reergueu mais uma vez a média para 36 pontos.

A partir de "Amor de Mãe", iniciada em novembro de 2019 e interrompida pela pandemia de coronavírus em março de 2020, as audiências voltaram a ficar perto dos 30 pontos, às vezes um pouco abaixo. Neste período, a Globo exibiu três reprises e a continuação da novela de Manoela Dias.

Até que veio "Um Lugar ao Sol", de Licia Manzo, exibida entre novembro de 2021 e março deste ano, que derrubou a faixa das 21h para um patamar inédito: 22 pontos. Várias podem ser as razões para o mau resultado, desde o frustrante adiamento da estreia, até a má divulgação feita pela Globo, passando pelas decisões sobre a duração da história (teria originalmente mais de 150 capítulos, foi reduzida para 107 e depois aumentada para 119).

Ainda assim, é difícil explicar por que a trama anterior, a reprise de "Império", de Aguinaldo Silva, registrou média de 27 pontos e uma novela inédita, exibida em seguida, ficou apenas na casa dos 22 pontos.

É aqui que entra "Pantanal". O remake da novela de Benedito Ruy Barbosa, escrita por seu neto Bruno Luperi, parece destinada a repetir o feito de "A Força do Querer", há cinco anos. Desde a estreia e ao longo de suas duas primeiras semanas, a novela vem atraindo interesse do público e registrou média de 27 pontos, cinco a mais que a média da trama anterior.

É um início muito promissor. Esta semana, ocorre uma transição importante, com um salto no tempo de 20 anos e a mudança no elenco. Acreditando que agora a história vai embalar, suspeito que a audiência pode subir ainda mais. Se conseguir terminar com uma média acima de 30 pontos, a Globo vai conseguir provar, mais uma vez, que o gênero segue como o mais querido do espectador brasileiro. E que as explicações para tantas oscilações de audiência não são fáceis.

Pra lembrar

24.08.2020 - EUA: Manifestantes protestam após policiais atirarem diversas vezes em Jacob Blake pelas costas, enquanto ele entrava em seu carro, com crianças acompanhando a cena Imagem: Kerem Yucel/AFP

Uma experiência ousada e surpreendente, proposta por dois cientistas políticos americanos, comprovou a influência de um canal de notícias de direita sobre o que pensam os espectadores. Cerca de 300 espectadores habituais da Fox News receberam US$ 15 (cerca de R$ 70) por hora para assistir a até sete horas de CNN por semana durante o mês de setembro de 2020. O resultado mostrou que eles adotaram pontos de vista menos extremos e mais moderados em relação a temas como ação policial, discriminação racial e um eventual governo Biden.

Pra esquecer

A linha do tempo adotada por SporTV e Premiere não foi bem aceita pelos espectadores Imagem: Reprodução/SporTV

Televisão é hábito, não cansam de lembrar os mais veteranos. Mas esse dogma não pode funcionar como um freio a mudanças e novidades. Como equilibrar hábito e necessidade de modernização? Eis a questão. Um episódio ocorrido esta semana mostrou a dificuldade. O SporTV e o Premiere decidiram aposentar o relógio que informa o tempo de jogo durante as transmissões e substituí-lo por uma espécie de linha do tempo, com registros de momentos marcantes da partida. Os protestos foram tão ruidosos que a Globo se viu obrigada a voltar atrás, e adotar um modelo híbrido. O cronômetro volta ao modelo tradicional, com a contagem dos segundos, e a linha do tempo passará a aparecer com a bola parada, para que o narrador conte, de forma cronológica, o que aconteceu no jogo.

A frase

Pelas redes sociais, o diretor Lázaro Ramos agradeceu pela primeira exibição de Medida Provisória no Brasil Imagem: Grupo CARAS

"Olha o preço do combustível e dos alimentos. Olha como a pandemia e o valor à vida foram tratados. Está difícil ser brasileiro sob o governo Bolsonaro, não posso falar só sobre a dificuldade de ser artista neste momento, não se trata disso"
Lázaro Ramos, que está estreando como diretor de cinema com "Medida Provisória". O filme enfrentou várias dificuldades para ser lançado.

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