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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Doc: Apesar do adiamento dos desfiles por causa da pandemia, "o samba cura"

A porta-bandeira Selminha Sorriso e o cantor Neguinho da Beija-Flor no documentário "Chegou o Carnaval", da GloboNews - Divulgação/Globo
A porta-bandeira Selminha Sorriso e o cantor Neguinho da Beija-Flor no documentário "Chegou o Carnaval", da GloboNews Imagem: Divulgação/Globo
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Mauricio Stycer

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Adeus, Controle Remoto" (editora Arquipélago, 2016), "História do Lance! ? Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo? (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011). Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Colunista do UOL

17/04/2022 07h01

O economista Cláudio Considera estima que a não realização do Carnaval em 2021 por causa da pandemia de coronavírus significou uma perda de R$ 5,5 bilhões para a cidade do Rio de Janeiro. O valor representa 1,5% do PIB carioca. "O setor de serviços é a principal atividade econômica do Rio de Janeiro. É uma perda que não tem volta", diz.

O documentário "Chegou o Carnaval", que a GloboNews exibe neste domingo (17), às 23h, mostra o impacto real deste cancelamento. A decisão afetou o cotidiano de milhares de moradores de comunidades carentes, cujas vidas gravitam em torno das escolas de samba.

"Muita gente acha que uma escola de samba existe porque desfila. Quando a história das escolas de samba mostra uma outra coisa: as escolas de samba desfilam porque existem", diz o historiador Luiz Antônio Simas.

O depoimento de Simas reforça a ideia, como mostra o documentário, de que o desfile, com hora para começar e hora para terminar, é apenas a ponta mais visível do fenômeno social representado pelas escolas. Como alguém diz, "escola de samba não tem hora para começar e hora para terminar; escola de samba é o ano todo".

Sem ensaios, sem shows, sem desfile, a situação se tornou muito difícil para gente que depende do Carnaval para viver. Casagrande, mestre de bateria da Unidos da Tijuca, conta: "Eu tive amigos diretores de bateria e até ritmistas próximos a mim que não tinham nada. Me ligavam pedindo socorro porque não tinham dinheiro para comprar um botijão de gás. Eu tirava do meu bolso para dar a eles".

A transformação de muitas escolas de samba em postos de vacinação contra a covid é muito simbólica. "Com isso, a escola de samba mostra a sua importância de estar no meio da comunidade, porque ela tem essa relação com os outros atores sociais que estão no seu entorno", diz o jornalista Leonardo Bruno.

Para piorar, o Carnaval de 2022 quase foi cancelado também. O recrudescimento da pandemia em janeiro levou ao adiamento dos desfiles do Grupo Especial no Rio e em São Paulo. Em vez de ocorrer em fevereiro, como programado, foram transferidos para os dias 22 e 23 de abril.

Que venha então o desfile em abril. "Carnaval é o momento de desejar a vida. Desejar que a vida seja melhor, apesar das dificuldades, apesar de não ser tão boa", lembra Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira. "Vai ser o maior carnaval de todos os tempos, um carnaval que vai marcar a vitória da vida sobre a morte".

Com direção de Daniel Botelho, João Mariano, Pedro Umberto e Sandro Arieta, o ótimo "Chegou o Carnaval" homenageia vários artistas ligados ao mundo do samba que morreram entre 2020 e 21, como Laila, Monarco, Nelson Sargento, Elza Soares, Tantinho, Mestre Mug e Aldir Blanc.

Também dedica especial atenção, em inúmeros depoimentos, às pessoas que fazem o Carnaval. Num momento tocante, Selminha Sorriso, da Beija-Flor, ensina o seu ofício de porta-bandeira para um grupo de crianças. "O samba cura", diz Luzia Moreira Ferreira, uma baiana da Mocidade, de 75 anos.