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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Assustado, Bolsonaro tenta tampar o sol com a peneira

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participa de cerimônia simbólica para entregar MP da Eletrobras ao Congresso - Mateus Bonomi/AGIF - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participa de cerimônia simbólica para entregar MP da Eletrobras ao Congresso Imagem: Mateus Bonomi/AGIF - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

24/02/2021 15h33

O capitão reformado e candidato à reeleição à Presidência da República cruza a Praça dos Três Poderes, arregando para o mercado, depois de atravessar o Rubicão, ao indicar, atabalhoadamente, um general da sua reserva, para dirigir a Petrobras, cujo patrimônio de R$ 100 bilhões foi queimado em dois dias, correndo agora atrás do prejuízo.

Ao atravessar a rua para chegar ao Congresso, cercado por um pelotão de, até o momento, fiéis seguidores, o ex-deputado por 27 anos revisitou a casa, onde, ainda protegido pelos assessores e por um desprestigiado Paulo Guedes, fez o gesto dramático com o qual pretende mudar a imagem de desastrado e incompetente, levando uma Medida Provisória para abrir o caminho da privatização da Eletrobras, uma das joias da coroa.

O olhar aterrorizado do candidato à reeleição, cercado por papagaios de pirata, mostra o desespero de quem foi soterrado pelas cinzas do dinheiro jogado na fogueira da especulação financeira, impaciente com a irritação do capitão com o sobe-sobe do preço da gasolina.

O candidato à reeleição discursa o óbvio e tenta falar com desenvoltura, afinal, conhece o ambiente, mas, como ali só usou da palavra para xingar, parece pouco à vontade para implorar que apreciem a sua Medida Provisória. Tropeça nas sílabas da capitalização, quer manter o prumo da majestade do cargo, mas sobra pouco espaço para ocupar os holofotes disputados com dois outros presidentes estreantes da Câmara e do Senado, com os quais governa em consórcio, e que não escondem o gosto pelo protagonismo e pelo palco.

O ex-czar da economia, um posto Ipiranga que virou uma lojinha de conveniência, fica escondido na cena presidencial de uma política da qual foi fiador e na qual o que é dito não é garantia. Mas, o agora titular da lojinha, perseverante em se manter no cargo, quer que todo mundo acredite que o capitão acredita nele. Recebe afago usando máscara, enquanto o candidato à reeleição range os dentes com a cara descoberta.

Se os gestos dramáticos criam uma foto, são as ações que definem a credibilidade. Disposto a governar pelas mídias sociais, o capitão reformado está em estado de choque, ao se dar conta de que não pode cancelar o mercado. A força do sobe e desce das ações e o tilintar das moedas indo para o ralo estão dando um choque de realidade no candidato à reeleição à Presidência da República, que tenta tampar o sol com a peneira.

Mas enquanto dá uma no cravo, dá outra na ferradura. Com os cavalos ferrados, o novo documento que anuncia a intenção de vender a Eletrobras, uma iniciativa que estava na gaveta dos congressistas há mais de dois anos, o ex-deputado acredita que poderá conter o estouro da boiada financeira.

Confusão feita, uma outra boiada, a de Ricardo Salles, aproveita a poeira e segue em debandada... O mais recente desafeto do ministro, o coronel Luiz Carlos Marchetti, demitido hoje da superintendência do Ibama do Mato Grosso do Sul, diz que o instituto está mobiliado com policiais militares de São Paulo, que ficam sentados em cima de milhões em multas, que não são cobradas.

Enquanto isso, pouco mais de 2 mil médicos negacionistas arranjaram muitos milhares de reais para pagar anúncio em oito grandes jornais - que teriam de alertar quanto à sua veracidade -, defendendo, sem qualquer base científica, o tal tratamento precoce com hidroxicloroquina e ivermectina para Covid-19. É uma tentativa de criar um discurso que legitime a leniência do capitão reformado nos processos que virão pela gestão da pandemia, que já matou quase 250 mil brasileiros e brasileiras até o momento.

E não faltam boiadas nesse gado. Resta saber até quando o "mercado" aceita que o sol tampe a peneira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL