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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com histórico de atleta, Bolsonaro dispensa Viagra em um país de brochas

24.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) visita o município de Sena Madureira, no Acre - Diego Gurgel/Ishoot/Estadão Conteúdo
24.fev.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) visita o município de Sena Madureira, no Acre Imagem: Diego Gurgel/Ishoot/Estadão Conteúdo
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

27/02/2021 14h48

O capitão reformado, ex-deputado federal por 27 anos e atualmente candidato à reeleição à Presidência da República anunciou esta semana, ao inaugurar 6 quilômetros de estrada no Ceará, que é "imbrochável", provocando um estremecimento no mercado de Ciltrato de Sildenafila, endereçado a homens com dificuldade de ereção, normalmente na idade madura ou em situação de estresse.

O candidato à reeleição, com histórico de atleta, não tem, aos 65 anos, dificuldades de ereção, como anunciou, provocando também inveja entre os homens, cuja experiência de desempenho sexual ativo muitas vezes é frustrante, por causa da soma dos anos.

O capitão reformado, expulso do Exército, e agora recrutador de generais de pijama e de general deslumbrado com o cargo de ministro da Saúde, revela ainda que, além de não experimentar as limitações da idade, também não sofre de estresse.

Por outro lado, sofrem de estresse e dor as famílias e os amigos de mais de 250 mil brasileiros e brasileiras mortos, vítimas do coronavírus.

Sofrem com o estresse e brocham os milhões de brasileiros que acreditam na ciência e escutam a palavra dos epidemiologistas, dos infectologistas, dos profissionais de saúde, que se acotovelam nos hospitais para salvar os doentes, que não têm mais leitos, respiradores ou medicação.

Sofrem de estresse as famílias que não podem se despedir dos seus queridos e queridas, mortos e enterrados sem velório, experimentando um luto sem palavras, sem abraço, sem presença.

Somos um país de brochas e maricas, que acreditamos, quando não negamos a ciência, que é importante usar máscara, manter o distanciamento social e não festejar clandestinamente nossos desejos infantis de estarmos "em contato".

A fala do capitão, que pretende se apresentar como um "Messias", remete ao personagem de uma minissérie da Netflix, do porta-voz da salvação, um tal Messiah, a soldo de capital internacional, fato só reconhecido pela investigação de uma polícia federal independente e corajosa e pela pressão das instituições democráticas. A arte copia a vida.

O imbrochável capitão, ex-deputado, que, ao longo de 27 anos ganhou salário pago pelos moribundos espalhados pelo país, e construiu um patrimônio político e financeiro para a sua família de filhos numerados, protegidos às custas das milhares de mortes, não tem estresse. E não brocha. Podem todos criticar e dizer o que quiserem. Está alheio, como ficam alheios os idiotas que apenas enxergam a si mesmos.

Somos nós, todos, aqueles que acreditam na ciência, um país de brochas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL