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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro troca vacina por pururuca e torresmo

Jair Bolsonaro toca sanfona em Sertânia, Pernambuco - Alan Santos/Presidência da República
Jair Bolsonaro toca sanfona em Sertânia, Pernambuco Imagem: Alan Santos/Presidência da República
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

03/03/2021 11h24Atualizada em 03/03/2021 11h24

A vida é uma festa para o líder da tragédia que tira vidas, desnorteia o país e destrói a esperança de milhões de pessoas, que choram mortos e sequelados, vítimas da Covid-19, enquanto o capitão expulso do Exército come torresmo, em convescote com os atores coadjuvantes do caos.

O ex-deputado federal, que durante 27 anos teve oportunidade para trabalhar em benefício do povo, mas usou o tempo para treinar filho como gerente visionário de franquia de loja de chocolate, o que lhe permite agora repousar em Brasília, numa mansão de R$ 6 milhões, sinalizando que está disposto a ficar por muito tempo na cidade.

O candidato à reeleição à Presidência da República está animado com a perspectiva de mais convescotes. Governa, de férias em férias, de festa em festa. Ontem, comemorava sem pudor, enquanto o país não sabe onde empilhar seus mortos.

Ao se preparar para visitar os estados - experimenta a gastronomia que os serviçais com muito gosto lhe preparam, coadjuvantes que são na tragédia brasileira, onde mais de 250 mil pessoas perderam a vida, e prefeitos e governadores, em desespero, buscam soluções para combater a Covid-19.

São os governadores e prefeitos, alforriados da responsabilidade do governo federal - que tem no tal Pazuello o símbolo inequívoco da incompetência, subserviência e deslumbramento -, que devem correr atrás de vacina.

A nova lei que autoriza essas autoridades buscar insumos e vacinas para a população é o atestado de que, aquilo que fala o gestor treinado para gerenciar almoxarifado, não se escreve.

Enquanto uma nova rota aérea se estabelece no país, levando de um lado para outro doentes em busca de tratamento, de leitos de UTI, de medicação e apoio, administradores de hospitais encaram o fato de que não haverá espaço para tantos mortos nas suas morgues.

A exemplo do que aconteceu no início da pandemia, em Manaus, onde caminhões frigoríficos eram o espaço de velório para as vítimas que aguardavam a vala comum, no outro extremo do país, em Porto Alegre, o drama se repete, anunciando que será em contêineres que muitos nós vamos procurar os nossos mortos.

Enquanto isso, na festa dos leitões, em Brasília, o candidato à reeleição à Presidência da República festeja com deputados que se esquecem para o que foram eleitos. O imbrochável capitão foge da responsabilidade, deliberadamente, tentando demonstrar que a sua loucura tem uma finalidade - matar -, implantar o caos para, assim como ingere os leitões, comer por dentro as instituições, a credibilidade do país e dividir o povo.

Não são amadores, os estudiosos, renegados pelo governo federal, como todos aqueles que sabem ler, que nos advertem sobre a morte também das democracias. Estas morrem por dentro, quando são corroídas as suas instituições, rejeitada a ciência, alimentadas, por uma retórica destemperada e populista, as polarizações no debate social.

Assim agindo, os agentes de disseminação do caos, como um vírus, produzem uma nova doença, cuja vítima somos todos nós que não participamos dos convescotes, que temos alergia a pururuca quando estamos ocupados em tentar proteger a quem amamos, a quem conhecemos e a quem desconhecemos, pelo puro e simples fato de sermos humanos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL