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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lula livre e Bolsonaro refém do Centrão e da pandemia

10.mar.2021 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em primeiro discurso após anulação de todas as suas condenações na Lava Jato - Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo
10.mar.2021 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em primeiro discurso após anulação de todas as suas condenações na Lava Jato Imagem: Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

16/04/2021 13h07Atualizada em 16/04/2021 13h33

Os ventos mudaram. Com ele as nuvens da política. O sopro cria um horizonte nebuloso para o capitão reformado, que invoca a força divina para se manter no cargo, já que, segundo ele, "só Deus" o tira da cadeira. Deus sopra os ventos, faz ventania, abre o mar e por ele passam os povos em busca da liberdade, subjugados pelo faraó. Diz a Bíblia.

O ex-presidente Lula é candidato à Presidência da República em 2022. É o candidato com maior perspectiva de vitória. As pesquisas e sondagens revelam que a narrativa que condena Lula como o chefe de um sistema de corrupção, do qual tenha se beneficiado pessoalmente, está se enfraquecendo.

Não por mérito de novas descobertas, mas na forma como se construíram os argumentos que o condenaram. Por demérito de um ex-juiz que contaminou com a sua atuação a percepção pública de que era um herói. Passou à condição de algoz. E não foram poucas as demonstrações de que tenha feito escolhas personalíssimas na instrução do processo, para inculpar o ex-presidente.

Mas, não é disso que se trata o momento. É sobre o vento. Sobre a nova paisagem do Brasil, em que o cenário é de milhares de mortos. São as vítimas de uma pandemia anunciada e gerida como se fosse inexistente. Ou seja, sem qualquer entendimento quanto ao dano real e potencial arrasador da covid-19 para as pessoas. A política do negacionismo criou a paisagem e fez soprar um outro vento.

Antes, eram ares levando aos ouvidos de milhões de brasileiros a canção de que era tempo de curar o país da doença corrosiva de malfeitos com dinheiro público, de práticas desavergonhadas e corruptas. Canta o vento agora que também não se vive de ilusão.

A ilusão não se sustenta, aquela de que há heróis com poder de resgatar um país que não resgata a si mesmo. Uma gente que fica hipnotizada com as falas desatinadas daqueles que invocam sobre si um poder irreal. Como o charlatão que se apropria de falsas credenciais, para, em nome do povo, ser o curandeiro de uma nação que apenas naquele momento enlouquece de prazer com as suas falas; que quer se apoderar da credibilidade institucional para prometer soluções mágicas.

De um lado o ex-presidente Lula se apoia no que é hoje a demanda mais profunda do país: o desejo de previsibilidade; um aceno para a possibilidade de futuro. O desejo de que humores oscilantes não sejam definidores de discursos atrevidos e ameaçadores à democracia. O desejo de que regras não sejam estabelecidas com base em anseios onipotentes de quem desacredita a lógica institucional. Aí o capitão se torna refém de quem conhece o jogo: o Centrão.

É Lira hoje, junto com Pacheco - um na Câmara e outro no Senado - o avalista do mandato de um presidente para que cumpra os quatro anos. São eles os deuses. Deuses pagãos. E cobram por proteção. O preço está lá no orçamento. São os bilhões em emendas parlamentares; são os carguinhos e os cargões. Não para sustentarem o governo do capitão e o próprio, mas para manterem a si mesmos, de olho igualmente na disputa eleitoral do ano que vem.

Lula se escora na lembrança de muitos que se beneficiaram de políticas sociais. Ele abana com os votos dos juristas que reconhecem injustiça na investigação de suas condutas. Não será o suficiente para acalmar a ira justiceira da moralidade pública.

São muitos ressentidos com as denúncias de corrupção como prática sistêmica de um partido político no poder. Contudo, a verdade revelada e nem sempre reconhecida é a de que foram quase todos os partidos - seja como agremiações, seja com ganhos individuais de lideranças espertas - beneficiários das regras frouxas e da benevolência dos sistemas de controle, quando se lambuzaram com o dinheiro público. PT, PSDB, MDB, PTB, DEM, PP, siglas com nome e endereço de corruptos e corruptores. Porém, o discurso da corrupção quis cristalizar uma imagem, a do ex-presidente Lula, dono de popularidade e de visibilidade, um símbolo necessário para gestos heroicos.

O STF (Supremo Tribunal Federal) encontrou a retórica para desdizer-se. Mas é assim a História. E é assim que instituições vingam os próprios erros.

Surgirão agora ecos de guardiões da moralidade pública, fazendo coro de que há benevolência institucional, em decisões judiciais, com a corrupção. Mais uma cortina de fumaça que não quer olhar para o óbvio: a limpeza causou sujidades.

A necessidade de herói é uma escolha infantil para a auto isenção de responsabilidade em fiscalizar, como cidadão e como ser humano, as pessoas eleitas para governar. É a preguiça da cidadania. Que deixa o país à deriva, com mortes e receitas de cloroquina; a Amazônia e o Pantanal em chamas; a desigualdade social que também mata de fome e de indignidade.

O importante agora é que o vento sopra. O capitão está refém da própria farsa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL