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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro testa mudança de pele e faz mandinga para desacreditar voto

Presidente Jair Bolsonaro com caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro com caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada Imagem: ADRIANO MACHADO
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

19/04/2021 14h52

Vem mais uma tentativa do capitão. O voto auditável tem o roteiro usado por Donald Trump nos Estados Unidos. É uma mandinga: desacreditar o voto eletrônico. Para ele, as urnas só falam a verdade se ele for o vencedor.

A caminho, mais uma campanha ao estilo cloroquina.

Ao conversar com a sua corte no cercadinho do Palácio da Alvorada, deu o tom. Está abrindo mão da ditatura - porque, segundo ele, "não tem ditadura boa" - mas aproveita o momento de pauta para criar mais um tema. No exercício do camaleão, traz o tema que já usou, mas com outras palavras. Não fala em voto impresso, mas em voto auditável. Ou seja, quer a recontagem de votos se a urna não o consagrar em 2022.

Vai ensaiando o bailado. A dança segue no baile da desfaçatez. Enquanto a nova cloroquina eleitoral não colar, o governo do capitão tenta impregnar o país com um discurso tangente de um novo capitão.

Ele ensaia no cercadinho. Refuga a sugestão de golpe, de ditadura. Obedece a voz do povo - o povo dele. Parece estar descobrindo que querem que ele mude, que dê uma mudadinha. E o ex-deputado federal por 27 anos vai, como um camaleão envergonhado, tentando criar um outro ente.

Para a Cúpula de Líderes sobre o Clima, nos dias 22 e 23 de abril, quando terá três minutos para falar, irá afirmar o compromisso com a preservação da floresta amazônica e com o meio ambiente brasileiro. E vai pedir um dinheirinho aí ao Joe Biden, para cumprir a tarefa. Agora não é mais uma questão de "soberania" receber uns dólares e euros, argumento que alegou para desprezar ajuda financeira europeia para o Fundo da Amazônia. Chega falsamente de joelhos à Cúpula e quer um condomínio para salvar a maior floresta tropical do planeta. Mas poucos confiam no síndico.

E a mutação do capitão apresenta mais surpresas. Ele agora virou porta-voz da vacinação. Comemora nas suas redes a aplicação do imunizante em mais de 25 milhões de pessoas no Brasil. Mas não conta na sua rede social que é a "vacina chinesa do Doria" a responsável por mais de 80% da imunização. A Fiocruz vai se acertar e haverá mais vacina. Porém, não custa lembrar que o próprio capitão disse, em dezembro, que "pressa para vacina não se justifica".

O capitão está tentando sequestrar a vacina, resposta desejada pelo mundo e esforço da ciência, como uma realização pessoal dele. Confia na massificação da retórica que cultiva via rede social, numa campanha do governo federal, sem graça, e num ministro insosso que já está em campanha eleitoral na Paraíba, em defesa da vacinação. Quer se apropriar do PNI (Programa Nacional de Vacinação) e do SUS (Sistema Único de Saúde), os quais, se dependesse dele, estariam implodidos pela sanha negacionista.

Fermentando também os argumentos que vai disseminado sobre gestão imprópria de governadores que deixaram o Carnaval acontecer em fevereiro de 2020, quando havia já sinais de que uma pandemia estava a caminho. A socialização do erro, uma prática do capitão, é a tentativa de esconder que foi pelas mãos dele o surgimento da tragédia: receitar cloroquina, desdizer a ciência, debochar da doença e dos doentes, impedir a compra de vacinas.

A lista que se repete como uma cantilena sem imaginação é o roteiro de uma crônica que a CPI da Pandemia irá escrever. O desgoverno e a irresponsabilidade irão aparecer, menos por convicção dos senhores senadores, que têm a obrigação de investigar, e mais porque tem luto em cada esquina das suas bases eleitorais. O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), está no seu último ano de mandato. Vai proteger a quem, se não a si mesmo?

Tem de tudo um pouco sendo defumado pelo capitão: governadores liberam geral no Carnaval, daí o vírus se espalhou; Mandetta dizia que não era para ir para hospital no início da doença, daí muita gente morreu e contaminou outras pessoas; a Pfizer fez exigências inaceitáveis, daí não comprou vacina; o Congresso precisava fazer uma lei, aí comprou vacina; e mais: o Brasil é um dos países que mais vacinou! Ah, deu bilhões para os governadores e prefeituras, que desviaram o dinheiro... Se nada disso convencer, tem a corrupção do PT, tem a Rede Globo-lixo, ou melhor "não é lixo, porque lixo é reciclável", tá ok?

E, se ainda não for suficiente, vai aí: é preciso que o voto seja auditável. Tá ok, capitão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL