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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro organiza curso de media training para tentar esvaziar CPI

Requerimento para instalação de CPI defende investigação de "ações e omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia" - EPA
Requerimento para instalação de CPI defende investigação de 'ações e omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia' Imagem: EPA
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

27/04/2021 10h14Atualizada em 27/04/2021 10h14

Foram 23 questões, seguindo um script montado pela leitura atenta da imprensa - que o capitão reformado diz que não lê - para organizar o discurso que os defensores dele farão na CPI da Pandemia, instalada no Senado Federal.

A tentativa de fazer media training - que é o treinamento de porta-vozes com perguntas presumidas e respostas desejadas, para enfrentar a curiosidade e a fúria de interrogadores, revela que não se pode deixar a verdade à solta, nem na forma, nem no conteúdo.

O problema é que os fatos não se constroem no discurso. Têm vida própria. A tentativa de descrever a realidade com palavras que não correspondem às evidências é um tiro no pé. De quem fala naturalmente, quando tenta se esconder nas palavras. A forma da exposição pode ser ajustada, mas os fatos não se moldam à retórica.

O general da reserva Ramos, escalado para coordenar o gabinete de crise instalado no Palácio do Planalto e roteirista do media training de defesa do capitão, atual candidato à reeleição à Presidência da República, na CPI da Pandemia, vai precisar atualizar a listra das 23 perguntas e respostas para os senadores governistas e as testemunhas do governo. Foram onze recusas de compra de vacinas feitas pelos vassalos presidenciais, segundo informa o jornalista Octavio Guedes.

O medo da verdade - que é eufemizada com a vitimização usada pelo capitão reformado para qualificar a CPI, que visaria, segundo ele, atingir o governo e se esquecer de malfeitos de outros tantos governadores e prefeitos - libera a imaginação para alquimias de toda sorte. Vai que funciona.

Foram tentativas canhestras, amadoras e incompetentes de fazer com que a CPI não se formalizasse. A começar pela recusa de instalação, levando em conta a "oportunidade" do momento, segundo o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, docemente constrangido pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), a cumprir o seu dever.

Seguiu-se a manobra de uma deputada de baixo clero e altíssima ignorância, instada pela família bolsonarista a questionar a legalidade e a moralidade de ter a comissão como relator o senador Renan Calheiros.

E, para perplexidade geral, a tal deputada recebeu um salvo-conduto para o seu pleito, de um juiz Charles de Morais, cuja decisão liminar demonstrou que precisa voltar aos livros de Direito. Sequer entende como se dá o processo de escolha de um relator de CPI, ao dizer que "obste a submissão do nome do ilustríssimo senhor senador José Renan Vasconcelos Calheiros à votação para a composição da CPI da Covid-19 na condição de relator". Esqueceram de contar para o juiz que relator é indicado e não votado.

Arthur Lira também acha inoportuna a CPI por uma razão eleitoreira. Quem ganha o palco e os holofotes é o inimigo político dele nas Alagoas, Renan Calheiros. Por conta de que algum sucesso e visibilidade do relator da CPI irá diminuir o tamanho do presidente da Câmara. Lira nada tem de convicção sobre responsabilidade no Congresso quando diz que CPI "não é delegacia de polícia". Tradução: Eu não quero o Renan ocupando os espaços de mídia. Lira tem no seu encalço a política alagoana. E já teve que se explicar ao Ministério Público Estadual, sobre a prática de "rachadinhas", quando era deputado estadual, entre 2001 e 2007.

E, como se não bastasse o furor bolsonarista para "obstar" - verbo do gosto do juiz Charles - a tal despachante do Procurador Aras, Lindôra Araújo, vai para cima do governador do Amazonas, Wilson Lima, denunciando-o por formação de quadrilha e peculato na gestão da pandemia. Interessantíssimo. O ardor legalista da despachante Lindôra é justamente no estado do Amazonas, onde se verificou o escândalo e a tragédia da asfixia de pacientes de Covid-19, por falta de oxigênio hospitalar, enquanto o general, que não sabe onde se compra máscara no shopping de Manaus onde passeia, distribuía cloroquina. Tragédia que deu origem à própria CPI.

Que não se passe um pano em gestões corruptas, ineptas, incompetentes. Mas a técnica de fazer focos de incêndio (opa, na "Amazônia não pega fogo, porque é úmida", lembra sempre o capitão reformado) é a tal estratégia diversionista, que tem por objetivo fazer com que não se olhe o problema. No caso, a leniência, negligência, a gestão estapafúrdia do governo federal no manejo da pandemia, que a CPI tem a obrigação de revelar.

Haja media training!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL