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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Hipocrisia e amadorismo ministerial são a nova cepa do governo Bolsonaro

4.jul.2019 - General Luiz Eduardo Ramos abraça o presidente Jair Bolsonaro ao tomar posse como ministro da Secretaria de Governo - MATEUS BONOMI/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
4.jul.2019 - General Luiz Eduardo Ramos abraça o presidente Jair Bolsonaro ao tomar posse como ministro da Secretaria de Governo Imagem: MATEUS BONOMI/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

28/04/2021 12h56Atualizada em 28/04/2021 13h15

Dois ministros do capitão reformado mostraram publicamente o que lhes vai na alma e o país tomou conhecimento, perplexo, com a hipocrisia e amadorismo das autoridades.

A hipocrisia do general reformado Ramos, ministro-chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, confessa que se vacinou escondido, porque quer viver e que "se a ciência e a medicina estão dizendo que é a vacina, né, Guedes, quem sou eu para me contrapor?"

Pois bem, o general sabe que a vacina, junto com outras recomendações da ciência, são a resposta para a redução do contágio do coronavírus e para diminuir a gravidade da doença quando contraída. São elas (as recomendações): distanciamento social, máscaras e higiene frequente das mãos com água e sabão ou álcool em gel. Repetir a cartilha tantas vezes explicada por especialistas, e informada pela imprensa, parece ter convencido o general reformado, que "tem sonhos ainda" e "quer viver".

Todavia, isso não inibe o sincero general reformado de participar, apoiar e aplaudir um chefe que nega tudo isso e que precisa ser "convencido" a se vacinar. Na sua ambiguidade, aparentemente dividido entre agradar santos distintos - a ciência e o negacionismo - o assessor palaciano parece ter optado pela hipocrisia. Afaga a chefia e nega, por omissão de gestos, a credibilidade à ciência, que poderia salvar vidas.

Participa de aglomerações com o capitão reformado e se presta a organizar o discurso do chefe para escamotear a gênese da tragédia que matou quase 400 mil pessoas no Brasil.

Mas, a covardia da hipocrisia, daqueles que se escondem e guardam para si o que é direito de todos - adesão aos benefícios da ciência -, alimenta as teorias tirânicas do capitão reformado, que ameaça com bravatas as instituições, colocando aqueles que não têm pudor para "salvá-lo" das suas omissões e incúria.

A hipocrisia, de mãos dadas com o amadorismo, prega peças aos personagens palacianos. Falam o que querem, com o sentimento da verdade que lhes aquece, mas, ó céus! - não sabiam que estavam sendo vistos e ouvidos em tempo real, no milagre cotidiano da tecnologia da informação, durante reunião com o Conselho de Saúde Suplementar. Soubessem, teriam editado as palavras, como tentaram - Ramos e Paulo Guedes, em malabarismos verbais infantis.

Se Ramos argumentou que se vacinou como mais um dos "38 milhões de brasileiros que tomaram a vacina" e que não queria fazer disso um "ato político", não se lembrou de mencionar que são atos políticos aqueles em que participa sem máscara, ao lado do chefe, aglomerando pessoas, num estímulo a que todos lhes sigam o exemplo. Qual é o comportamento que o general gostaria de ver reproduzido? Se, como confessou, está "tentando convencer" o capitão reformado a tomar a vacina, por que é cumplice público do comportamento negacionista dele?

E, ainda na sinceridade, Guedes, para a mesma plateia, dá vazão a um servilismo inconsciente e desinformado. Elogia a vacina da Pfizer, como obra de graça dos "americanos", ao mesmo tempo em que, reforçando a mesma automação preconceituosa, critica a eficácia da CoronaVac, desenvolvida no país onde o vírus teria sido "inventado".

Na tentativa de um malabar de semáforo, o ex-posto Ipiranga faz uma conversa comprida para apenas reconhecer que foi "uma imagem infeliz", assustado com o alcance corrosivo da incontinência verbal sincericida, ao criticar os chineses. Falou na gratidão à China pela vacina, mas se esqueceu de pedir desculpas. O pedido precisou ser inferido. Se a "imagem é infeliz", inapropriada, não é suficiente que seja reconhecida. Mas o ministro não trai a si mesmo. Fica no explicacionismo. Da mesma cepa do seu amadorismo e nas falas compridas de quem entrega o Secretário da Fazenda à sanha do Centrão. Não demite, remaneja, explica longamente, entregando o cordeiro à imolação.

E, ainda coerente com a visão de que a vida é para alguns, não para todos, o Guedes deixa bem claro que pretensões de longevidade das pessoas comuns não estão disponíveis. "Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130, não há capacidade de investimento para que o Estado consiga acompanhar" a busca por atendimento médico crescente.

Tradução: morram jovens.

A saga do preconceito é histórica. Está na biografia de Guedes, que, no longínquo ano de 2019, advertiu:

"Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada. Pera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita. Vai para Cachoeiro de Itapemirim, vai conhecer onde o Roberto Carlos nasceu, vai passear no Brasil, vai conhecer o Brasil. Está cheio de coisa bonita para ver".

Ao negacionismo e ao preconceito somam-se o amadorismo e a hipocrisia na busca de salvação da própria pele. O Tribunal a História não os absolverá.

Que a CPI faça antes a sua parte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL