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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Governo quer calar a imprensa para esconder que o rei Bolsonaro está nu

Jair Bolsonaro discursando - de perfil - Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro discursando - de perfil Imagem: Marcos Corrêa/PR
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

04/05/2021 12h05Atualizada em 04/05/2021 12h11

Há uma expressão segundo a qual a tentativa de se esconder alguma coisa evidente é "tampar o sol com a peneira". Usar as palavras, a retórica e a tentativa de intimidação são recursos daqueles que estão acuados pelo medo. São os mortos - hoje, no Brasil, vítimas da covid-19 somam quase 410 mil pessoas, que se levantam para assistir ao espetáculo em que bolsonaristas tentarão distrair o povo brasileiro, na CPI da Pandemia.

Serão palavras ensaiadas pelos próceres para livrar o governo federal, na figura do seu capitão reformado e do general da ativa, de crimes por omissão e pela negligência, incapacidade e ausência de empatia para lidar com a pandemia ao longo de mais de um ano de tragédia.

Quando a imprensa noticia a abertura de valas comuns para enterrar as vítimas; quando a imprensa publica o número de contaminados e de mortos; quando a imprensa pergunta por que o capitão não usa máscara, se é recomendação expressa das autoridades sanitárias para redução do contágio do coronavírus; quando a imprensa quer saber por que o capitão reformado insiste em prescrever a cloroquina, quando a ciência e o fabricante do medicamento dizem que é inócuo o seu uso, e até pernicioso para combater a doença; quando a imprensa pergunta onde estão as vacinas para a aplicação da segunda dose; quando a imprensa pergunta por que o governo recusou a oferta da Pfizer para a compra de 70 milhões de vacinas que poderiam imunizar parte da população brasileira desde janeiro; quando a imprensa pergunta sobre o cronograma de vacinação e por que esse calendário não é cumprido; quando a imprensa pergunta por que médicos financiados pelo Ministério da Saúde foram para Manaus divulgar e recomendar o uso de kit cloroquina, quando os hospitais viviam a véspera da crise de desabastecimento de oxigênio, cuja falta matou por asfixia os doentes de covid-19...

Quando a imprensa pergunta e divulga o que o capitão reformado não quer ver, a culpa é da imprensa, pelo que mostra.

Quando a imprensa pergunta, é culpa da imprensa que os fatos existam, na lógica imperturbável de um projeto de destruição da credibilidade das instituições, da determinação em envergonhar uma nação, praticada pelo governo liderado por um ex-deputado federal que durante 27 anos viveu de salário pago pelo povo, sem oferecer nada em troca. Mas, agora com os holofotes da imprensa na CPI, afia o discurso do negacionismo contra tudo o que lhe contraria a vocação pela tirania.

Os filhos numerados têm o treinamento para a retórica antidemocrática. E agora um novo ministro da Saúde vai aos poucos revelando, na fala mansa e tíbia, idêntica vocação, por escamotear a verdade. Queiroga faz coro com os filhos do capitão e com o próprio capitão reformado, em atribuir culpa pelos fatos à imprensa. É a conhecida máxima segundo a qual o mensageiro é o responsável pela mensagem, não quem a escreveu. Mate-se o mensageiro!

Em encontro com empresários, dentro de uma rotina que agora parece ser a nova moda de convencimento do governo, segundo a qual a culpa é da imprensa, faz a cantilena dos aprendizes de absolutismo. Se não for notícia, se não se falar a respeito, não há tragédia. Portador da síndrome da avestruz, que também deseja impingir ao país o silêncio sobre a incúria de que é cúmplice, confessa a mágoa pelo direito democrático à informação.

O capitão reformado já agrediu verbalmente jornalistas, para quem repórter é "idiota" porque pergunta. Levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) revela que os ataques à imprensa no governo do capitão reformado aumentaram mais de 100% no ano passado, em relação ao ano anterior.

Agora, o tal quase ministro da Saúde prescreve o remédio para o incômodo provocado pela exposição dos fatos. Pede a empresários que deixem de anunciar nos veículos de imprensa. Que a mídia seja calada pelo estrangulamento econômico. É a receita do doutor.

O alvoroço para com o que será dito e o que será publicado a partir de hoje na CPI da Pandemia leva ao esforço descomunal pela pregação do silêncio. A tentativa de que não se mostre à nação brasileira, sem a perturbação da retórica inflamada e paranoica dos filhos e filhotes do capitão, a construção da trágica mortandade no país.

Não, Queiroga, não capitão, não vassalos assessores e o descabido presidente da Câmara, com sua fala de oportunidade, que é mesmo de oportunismo eleitoral - não, senhores e senhoras, por mais que tentem calar a imprensa, "o rei está nu".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL