PUBLICIDADE
Topo

Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Medo e covardia de ex-secretário não protegem Bolsonaro na CPI

12.mai.2021 - CPI da Covid ouve o ex-secretário especial de Comunicação Social da presidência, Fabio Wajngarten - Edilson Rodrigues/Agência Senado
12.mai.2021 - CPI da Covid ouve o ex-secretário especial de Comunicação Social da presidência, Fabio Wajngarten Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

12/05/2021 16h11Atualizada em 12/05/2021 16h11

De que tem medo o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, para se sentar diante da CPI da Pandemia e se comportar como um rato?

O depoimento da CPI foi convocado para esclarecer declarações feitas pelo ex-secretário, em que condena um ex-ministro general da ativa de omissão na compra de vacinas. Chega montado no entusiasmo em buscar resposta pelo controle da pandemia, levando-o a buscar a farmacêutica Pfizer para oferecer o imunizante ao país. Ele se desdiz, com desfaçatez.

Desdiz-se também com placidez (embora visivelmente assustado, mas meticulosamente estabelecido nos tênues limites da autoincriminação e na incriminação do capitão, chefe dele). Uma pérola como "Em tese, desconheço...", quando indagado a respeito de existência de escritórios de advocacia que estariam nas negociações com a farmacêutica.

Mas deixou cair no colo dos senadores carta da Pfizer encaminhada ao governo brasileiro no dia 12 de setembro de 2020, oferecendo vacinas, sem que obtivesse resposta, embora pedisse urgente decisão, para que os imunizantes fossem disponibilizados ao Brasil. Sem resposta. O ex-secretário entrou no circuito e falou com o capitão reformado no dia 9 de novembro.

Fica o vácuo.

O ex-secretário quis se defender. Falou em campanhas de vacinação. Mais uma tentativa de livrar a cara.

É uma pena que os senadores e senadoras não tivessem visto as 11 campanhas de comunicação concomitantemente à fala do ex-secretário. Nos reclames feitos pela Secom, a política de imunização de rebanho, sonho de consumo do capitão reformado, era clara, pela conclamação a todos que voltassem ao trabalho e que utilizassem medicamentos que comprovadamente não serviam para tratar a Covid-19.

O estilo "rato" do ex-secretário é o símbolo de um novo modelo de comunicação, que preconiza a fuga rasteira do que faz, pensa e quer. E tem seguidores. O meio-ministro Queiroga adotou.

Felizmente, nem todos.

O contra-almirante Antonio Barra Torres fez um divisor de águas entre a vassalagem militar, que foi a marca da gestão do general da ativa Pazuello no Ministério da Saúde, e a autonomia que se espera de uma autoridade que se subordina aos interesses do Estado e não ao voluntarismo de um indivíduo. O capitão reformado tem lá as crenças dele, e os unguentos com que pretende enfeitiçar a população brasileira, absorvidos sem críticas pela horda de seguidores fanáticos e adestrados pelo discurso inverossímil.

Na CPI da Pandemia, um contra-almirante, cargo que ainda teria pelo menos mais dois postos acima na hierarquia da Força, demonstrou que um militar não precisa chegar ao último degrau da carreira para ganhar autoridade. O general intendente da ativa Pazuello chegou no final da linha, literalmente, e envergonhou o Exército.

Barras Torres, no depoimento direto e franco na CPI, não se iludiu com as benesses da intimidade com um capitão reformado-deslumbrado, com a possibilidade de importar um churrasqueiro para lhe grelhar uma carne de quase dois mil reais o quilo. Já o capitão festejou de cambulhada o Dia das Mães, com a mulher que se livrou de explicar origem de cheques de 89 mil reais na sua conta, por generosa leitura de um engavetador-geral.

Mas, agora, o que se trata é de honradez no exercício da função pública. O que se trata é de desperdício de dinheiro público, que tenta escapar do carimbo de corrupção - na compra de votos para um Arthur Lira ficar no comando da Câmara dos Deputados. São bilhões de reais tirados do Censo, das Universidades, das escolas, do Sistema Único de Saúde, para tratorar a oposição no continuísmo, numa causa cujo interesse é exclusivamente a autopreservação.

Que se danem o meio ambiente - agora com a ameaça mais recente de depauperamento, por uma nova artimanha legal que permitiria obras por autodeclaração de respeito à preservação ambiental pelos empreendedores. Chega-se ao limite do cinismo, uma tratorada que abre a estrada para que passe a boiada de um ministro Salles, que posa junto a toras de madeiras extraídas da Amazônia, em terras que precisam ser preservadas.

São muitas as tentativas de "ratos" em encobrir a realidade, usando palavras como desconheço, não me lembro, não sei, não tenho ingerência. É a obsequiosa estratégia de tentar impedir que omissões e ações desastradas sejam desculpadas pelo nome genérico de burocracia ou de limites legais, quando nem uma nem outra eram obstáculos. Se uma voz de prisão, aventada pela exasperação provocada pelo cinismo e evasão do ex-secretário não serve para refrescar a sua memória, e despertar a sua coragem, algo deve estar contribuindo para tanto medo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL