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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Povo não é rebanho de Bolsonaro, com medo de ratos e enganado por coelhos

Faixa com os dizeres fora Bolsonaro foi colocada nos arcos da Lapa no Rio de Janeiro - Reprodução/Internet
Faixa com os dizeres fora Bolsonaro foi colocada nos arcos da Lapa no Rio de Janeiro Imagem: Reprodução/Internet
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

16/05/2021 11h54Atualizada em 16/05/2021 11h54

O capitão reformado está acordando a cada dia, desde a instalação da CPI da Covid, um pouco mais cabreiro. Vem tentando artifícios de toda sorte para driblar o que não admitia: que as pessoas acabam por limpar as lágrimas pelos mortos, pelos milhares de mortos, vítimas da incúria, omissão, negligência e incompetência que potencializaram a virulência da pandemia.

As pessoas começam a se dar conta de perdas irreversíveis de pessoas queridas, de conhecidos, de símbolos na cultura - referências nas artes, na política (sendo ou não adeptas do pensamento de uns e outros), e mais que tudo, de conhecidos de conhecidos, de parentes, da família, de amigos, de amigos de amigos com os quais igualmente compartilham a dor da ausência, por solidariedade e com perplexidade.

São muitas histórias inacabadas.

Contas de especialistas informam que, se tivesse prestado atenção à oferta da farmacêutica Pfizer, que tentava, desde setembro de 2020, trazer vacina para o Brasil, teríamos cerca de 5 mil vidas poupadas. Cada um de nós olha do lado e se pergunta se aquele morto, aquele ou aquela sequelada pelo coronavírus poderia ter melhor sorte.

Desvenda-se, para incredulidade daqueles que mantinham um atestado de fé num mito com pés de barro e cabeça de papel, tomando-o como um oráculo incompreendido pelos "esquerdistas", a existência de gabinetes paralelos. Um conhecido, o "gabinete do ódio", cuja ocupação é disseminar ameaças contra supostos inimigos do capitão e suas estapafúrdicas declarações. O outro agora aparece na forma de um conselho de "çábios" (com licença ao jornalista Elio Gaspari, criador da ironia), que prescreve a torto e a direito poções mágicas, cuja finalidade é promover uma tal imunidade de rebanho.

São as secretícias de um capitão expulso do Exército, sob a acusação de tramar, no escondidinho, contra a própria instituição. Aliás, um talento que também fica evidente no escudeiro Arthur Lira, feliz depositário de parte de emendas parlamentares no valor de R$ 3 bilhões, dadas em segredo a seu grupo, com claro intuito de apoio eleitoral.

Mas, voltando ao rebanho.

Se por um lado a ciência reconhece a existência da imunidade de rebanho como uma realidade que breca a disseminação do vírus e a sua mortalidade, por outro define que a obtenção dessa imunidade se dá pela proteção, e não pela exposição desabrida e inconsequente à doença.

Mas, na cabeça de papel do capitão reformado, o Brasil é povoado por um rebanho insano, cuja morte dos pares não o afeta, desde que possa seguir na sua ruminação do ódio paranoico contra todos aqueles que pregam a vida.

O capitão reformado e a sua turma de amadores sem tirocínio, formação ou empatia, travam a luta diária para criar uma narrativa que tampe os olhos da população. São os artifícios de jogar poeira nos olhos da população, por meio de falas desconexas, de agressões de baixo calão, de falta de educação, de poucos modos. Mas com intenção fixa: reinar, reinar, reinar.

Uma a uma, porém, as estratégias da corte de pseudo Rasputins vêm sendo desmoralizadas. O Brasil não é povoado por um rebanho que teme ratos ou se deixa seduzir por coelhadas.

As pesquisas de opinião começam a bater na cara do capitão reformado, como a dizer que precisa virar o disco. E isso ele está fazendo, com a ajuda da conveniência medida de um Arthur Lira, que coloca a discussão do voto impresso na pauta. São tentativas de desmoralizar as instituições, como cupins roendo os pilares que sustentam a democracia. Miram a imprensa, o voto, os juízes da Justiça Eleitoral - eleito o ministro Luís Roberto Barroso como destino de impropérios - e do STF (Supremo Tribunal Federal). Na corte, as decisões que têm valor são aquelas que atendem os interesses inconfessos de seus pleitos.

O coelho-general ganhou o direito de não falar tudo. Para se proteger. Não ganhou o direito de proteger o chefe. Terá que explicar que ouviu do ministro Gilmar Mendes, do STF, que as cláusulas contidas no contrato de compra de vacinas pela Pfizer não eram "leoninas". E que não deu sequência à contratação dos imunizantes oferecidos. Um manda e outro obedece, general?

Não serão os ratos e tampouco os coelhos os bichos da identidade nacional. Esses animais precisam ser preservados, no seu ambiente. Não na política. Também não há lugar para hienas.

O Brasil não é povoado por um rebanho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL