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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Pazuello faz biombo para Bolsonaro e leva chumbo na asa para cumprir missão

20.mai.2021 - O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante 2º depoimento à CPI da Covid - Leopoldo Silva/Agência Senado
20.mai.2021 - O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante 2º depoimento à CPI da Covid Imagem: Leopoldo Silva/Agência Senado
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

20/05/2021 16h54Atualizada em 20/05/2021 16h58

O ex-ministro general da Saúde enfrenta a CPI da Pandemia com a eloquência dos tolos.

Tem a determinação cega dos ignorantes. E fala com a convicção de quem enxerga o país pela fresta de uma ideologia que tem ideia confusa de soberania e desentendimento do que é responsabilidade.

É de dar pena. Tanta vitalidade com tanta incapacidade. Fosse a sua energia direcionada em favor da vida e não agindo como teleguiado de um capitão obtuso, a conta dos mortos seria outra. Muito menos óbitos, muito menos numerosos os sequelados.

O general Pazuello, olhos arregalados por cima da máscara, tentando se lembrar das instruções do seu media training. De dar pena. E se ofereceu para mais missões. De dar pena.

Mas é melhor que a pena e a compaixão sejam dirigidas às verdadeiras vítimas de tanta incompetência.

A CPI da Pandemia esclarece o que acontece no Brasil de mais de 440 mil mortos, vítimas da covid-19.

Missão cumprida de Pazuello justifica a demissão dele. Não explica qual.

Brasil não teve mais vacina porque Pazuello não quis. Burocracia como norte. Enrola em datas sobre omissões.

Presidente da República não manda em Pazuello, ele assegura. O cordeiro pratica autoimolação. Vai ganhar o reino dos céus?

E querem fazer acreditar os defensores do capitão: o governo federal não tem responsabilidade na tragédia da pandemia.

A estratégia da base do capitão reformado é insistir em que o declaratório é mais importante que os fatos. Não são os acontecimentos que contam; o que importa é a interpretação, as explicações que não fecham com a realidade.

As habilidades do general em driblar com palavras a realidade é um exercício que se transformou no foco do seu depoimento.

A capacidade de enrolar com falas que tangenciam respostas e não entram no mérito demonstra um esforço hercúleo em explicar o inexplicável. Usa as palavras para esconder a cadeia de comando e faz malabarismo para não enxergar o que salta aos olhos de todos os brasileiros.

E o ex-ministro revela, embora tentando se esquivar. Ele conta que se aconselha com a sua secretária para decisões de políticas públicas de saúde. Não se apoiou em conselho de autoridades sanitárias para decidir.

Sem pressa, o Ministério da Saúde compra seringas na China para entrega por navio. Sem pressa.

E segue a sapiência: hidroxicloroquina não faz mal. Máscara não é necessária.

Aplicativo Tratecov é ferramenta para tratamento precoce em Manaus. Não funcionou. Morreram 2 mil pessoas em 10 dias, quando a cidade estava sem oxigênio.

Pazuello é um vexame.

Mas não é o único vexame. Na base de defesa do capitão tem má-fé. E segue o roteiro do eloquente indefensável.

Apresentam declarações de governadores em defesa da cloroquina, antes da ciência condenar a medicação.

Alegam que médico pode fazer o que quiser. Independente da ciência.

Que tratamento precoce salva.

Senadores da base falam de boca cheia das milhões de doses de vacinas aplicadas no Brasil. Esquecem de dizer que isso foi feito apesar do governo federal, que tentou dificultar o acesso dos brasileiros a imunizantes. Mas precisou se render à pressão da sociedade e da fila crescente de mortos.

Agora é com o Ministério Público verificar a verdade do foi que dito, tangenciado, omitido pelo general Pazuello. A checagem feita pela CPI identificou 14 contradições no primeiro depoimento.

O general é um ajudante de ordens. Sim, na CPI a ordem é esconder o chefe. E socializar os erros em tomadas de decisão que são "tripartites".

Ah, sim, o ex-ministro general não conhecia o SUS. Ficou encantado!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL