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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O "doutor" Bolsonaro poderá ser o primeiro presidente charlatão do país

 Jair Bolsonaro, presidente da república, segura uma caixa de Cloroquina nesta domingo (19) no Palácio da Alvorada  - MATEUS BONOMI/ ESTADÃO CONTEÚDO
Jair Bolsonaro, presidente da república, segura uma caixa de Cloroquina nesta domingo (19) no Palácio da Alvorada Imagem: MATEUS BONOMI/ ESTADÃO CONTEÚDO
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

18/06/2021 17h15Atualizada em 18/06/2021 17h17

O vazio da CPI da Pandemia foi um esforço em deixar falando ao vento teses negacionistas e propostas sem amparo na ciência. Um silêncio para que porta-vozes do atraso não ocupassem o espaço nobre da imprensa e o palanque para propostas que ninguém leva a sério. A não ser eles mesmos e por razões inexplicáveis, diante da triste e evitável tragédia brasileira.

A escola do charlatanismo, que tem adeptos, fará com que alguns deles passem para a cadeira de investigados pela CPI, deixando o conforto da testemunha. Uma tentativa também de responder às fake news.

Como ajudantes de ordens do charlatanismo, as grandes plataformas de mídias sociais também serão confrontadas. A pressão é para que saiam da confortável posição de anódinas, palco e canal pelos quais tudo pode transitar. Não, nem tudo pode. E esse recado vem sendo dado mesmo na terra de Donald Trump, que inspirou o comportamento do capitão e seus filhos, em utilizar as redes como se estivessem no seu quartinho de despejo. É o charlatanismo reproduzido na velocidade de algoritmos treinados para disseminar mentiras.

O charlatanismo do capitão, quando prescreve tratamento sem ter qualificação técnica, é uma possibilidade de tipificação. Uma dúvida que não parece ser de muitos. Não daqueles que têm algum compromisso com a verdade e com a ciência. Será que o capitão reformado, que só pensa naquilo, é charlatão?

O Aras, aquele da PGR (Procuradoria Geral da República), mandou desarquivar inquérito de investigação de prática de charlatanismo pelo capitão, por receitar a plenos pulmões, em todas as suas mídias, um tratamento cloroquínico e imunidade de rebanho para a Covid-19. E, na contramão da ciência.

Será que o procurador achou alguma coisa que não estava evidente antes? Mesmo quando via e ouvia as propagandas de tratamentos precoces, kits e tais, divulgadas sem qualquer pudor e com insistência pelo capitão? Terá o procurador achado, de repente, que a ciência merece ser ouvida, vista e respeitada?

Uma outra hipótese para a conversão de Aras talvez esteja hoje no Pará. É para lá que foi o capitão, com um séquito feliz.

Talvez o ímpeto desarquivista possa ser um efeito da viagem do capitão com o concorrente pela vaga que tanto almeja no STF, André Mendonça, em tour de campanha, posando para foto sem máscara, ao lado do capitão, mas alegre da vida!

Tem um xadrez aí. A indicação de um nome para a vaga do ministro Marco Aurélio, que se aposenta em julho, provoca um duelo que acontece sob os olhos e a vontade do capitão. Ele deseja a vaga para um amigo do peito, e, como já disse, deseja alguém "terrivelmente evangélico" na Corte. Não é uma afirmação sem fundamento admitir que o capitão já escolheu o seu advogado particular, atualmente na Advocacia Geral da União, para o STF.

Talvez o meio-procurador, que se deixou escrachar por dentro e por fora da PGR, se sinta meio abandonado, mas ainda tem tinta na caneta, como demonstrou o seu ímpeto desarquivador, sem uma nova razão evidente. Seria uma coincidência alinhar-se aparentemente à determinação da CPI da Pandemia, em investigar a atuação do capitão como propagandista de remédios com ineficácia comprovada contra a Covid-19?

Ou será que... Em pouco tempo saberemos.

Assim como o tempo - que é "o senhor da razão" - será conhecido, no tempo, a decisão do Tribunal Penal Internacional de Haia, que desde março faz "avaliação preliminar de jurisdição" do capitão por crimes contra a humanidade e incitação ao genocídio de povos indígenas, cumprindo um ritual processual que tem três etapas.

A obsessão pela morte - dos outros - pela prática do charlatanismo, pelo esforço desenfreado em favor do armamentismo, ou ainda pelo estímulo às pessoas para que se exponham ao vírus, terá um veredicto de culpabilidade: pela CPI, pelo Tribunal Penal Internacional de Haia, pelo país consciente, que optou pela vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL