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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

No colo do Centrão, Bolsonaro dá as mãos a sonhos golpistas de militares

Jair Bolsonaro com Arthur Lira  - Reprodução
Jair Bolsonaro com Arthur Lira Imagem: Reprodução
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

22/07/2021 10h49Atualizada em 22/07/2021 10h49

O "recado" do general da reserva Braga Netto, ministro da Defesa, que tem sob o seu comando as três Forças Armadas, ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, de que não haveria eleições no ano que vem se não houvesse voto "auditável" - impresso - é um escárnio e uma provocação contra a democracia. O relato é do jornal O Estado de S Paulo.

Ou falta ao general compreensão do que é auditável, ainda com a memória de que papel é o único e possível fiel depositário da vontade do eleitor, ou está em busca de algum pretexto para dar vazão a instintos antidemocráticos. Não é razoável acreditar que falte ao general estrelado conhecimento básico sobre o uso da moderna tecnologia e tampouco do passado das eleições brasileiras que, com voto eletrônico também elegeram o chefe dele. Ou ele está à procura de argumentos para tentar criar um discurso de "defesa" do país contra a "fraude" eleitoral apenas porque as pesquisas mostram que o candidato que rejeita aparece como favorito.

Os indícios são de que nem uma coisa nem outra.

O gosto pelo poder desperta um sabor inigualável naqueles que têm o usufruto de benesses que tapetes vermelhos e vassalagem de toda sorte oferecem aos seus titulares. Já foi dito que poder corrompe. Poder absoluto corrompe absolutamente. Mais que dinheiro, que é a consequência natural do usufruto do poder.

Houve coro, como revela o jornal O Estado de S. Paulo, na ameaça institucional, no canto desafinado do general e do capitão reformado - lembrando, afastado do Exército por indisciplina - no dizer em alto e bom som, que se o jogo não for feito como querem, o general e o capitão levam a bola para casa. Querem que o jogo seja pelas regras deles e que lhes assegure sempre vitória. Poder.

As Forças Armadas estão sendo arrastadas de forma humilhante pelo capitão reformado diante da população, quando envolve uns e outros militares na cena política, cuja intenção clara é a própria preservação e a de seus filhos, já que investigações apontam que há muito a ser esclarecido na rubrica corrupção, neste governo e em gabinetes dos parlamentares da família Bolsonaro.

A eleição de Arthur Lira, em troca de bilhões de reais em emendas escondidas para que o novo presidente da Câmara se sentasse sobre pedidos de impeachment contra o capitão, foi o primeiro passo para que pudesse repetir que "só Deus" o tiraria da cadeira. Assim chamado, Lira agradece e passa ocupar todos os espaços, não apenas na gestão dos recursos orçamentários, fazendo a alegria do fisiologismo político, mas também ocupando as salas de mando do governo. Já tem uma despachante de plantão no Palácio do Planalto, a deputada de primeiro mandato Flávia Arruda, mas é pouco. Ciro Nogueira dará as cartas, fazendo o mapeamento do botim e garantindo que tudo saia da maneira como quer o Centrão.

O capitão está no colo do Centrão, mas e o Centrão, está no colo de quem?

A sociedade exige que essas "boutades" de generais e afins sejam tiradas a limpo. Não serão suficientes as conversas de coxias entre fardados e civis, ao revés da transparência que é exigida quando se trata do destino de um país, aviltado pela inépcia, pela incompetência, pela omissão, e talvez pela corrupção, receita para a trágica morte de mais de meio milhão de pessoas, vítimas de um vírus mais abominável que o coronavírus.

Para que o projeto de domínio se concretize, é essencial a pusilanimidade de muitos agentes entronados em cargos públicos. O capitão já está dando garantias a um PGR (Procurador Geral da República) que siga na sua toada de ignorar o país e se curvar aos desejos, estabilizando-o no emprego por mais dois anos e acenando com a cenoura de uma cadeira no STF (Supremo Tribunal Federal) caso se reeleja (sim, pelo voto impresso).

As moedas de troca passam ao largo do interesse da democracia, distantes das necessidades do povo brasileiro, porque sempre há o recurso de uma caneta ágil para criar empregos para o grupo de amigos - Onix Lorenzoni que o que o diga - tendo ocupado três ministérios com idêntica incompetência, porque tem a eloquência dos sabujos, na defesa intransigente do capitão. Sempre haverá um lugarzinho para que todos os vassalos possam seguir na sua cruzada de se manter onde querem estar, na glória palaciana.

E não se incomodam em ser atropelados, como foi confessadamente o general Ramos, destituído do cargo da Casa Civil sem direito a aviso prévio, mas com a promessa de ter uma nova missão. Nisso também se fiou o Pazuello, porém, mais astuto, não abriu mão da ativa no Exército, agora refém da sua imagem de inepto ou "bobo".

Mas, para tecelagem de uma arquitetura golpista, é preciso mais ajuda.

Sem mostrar constrangimento, e docemente mordiscado pela mosca azul, o Pacheco, presidente do Senado e do Congresso Nacional, que assegurou a tranquilidade e o comprometimento das Forças Armadas com a democracia, depois da nota ameaçadora de Braga Netto - sim, ele! - contra o senador Omar Aziz. Onde está o Pacheco agora? Na caserna, na sacristia, em penitência prévia, ou na defesa institucional da democracia e da casa que preside?

E o STF?

Onde estão todos os que podem calar os delírios golpistas?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL