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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro fala, sem provas, para juntar militância e desafia a democracia

29.jul.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante sua live semanal - Reprodução/YouTube
29.jul.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante sua live semanal Imagem: Reprodução/YouTube
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

30/07/2021 09h40Atualizada em 30/07/2021 09h40

Ao mentir sobre a existência de fraude na urna eletrônica brasileira e usar a estrutura de governo para difundir dúvidas sobre a lisura do pleito, o capitão reformado poderia estar praticando um atentado contra a democracia brasileira.

Investigação que passa ao largo da PGR (Procuradoria Geral da República), onde está instalado com a promessa de mais dois anos de emprego e de, mais adiante, contar com um cargo com estabilidade no STF (Supremo Tribunal Federal), Augusto Aras não se mexe para colocar em risco os seus ganhos pessoais. A cidadania que procure outros recursos para assegurar as suas conquistas democráticas.

O capitão reformado utiliza uma falácia reconhecida em cursos básicos de lógica, que é a inversão da prova, num apelo à ignorância. Eu explico: prove que fantasmas não existem! Como assim? Prove que a urna eletrônica não pode ser fraudada. E ainda: prove que você não matou! Quem acusa traz a prova. É senso comum a inocência enquanto não se prova o contrário.

Diz o capitão, em determinado momento de sua live desta quinta-feira (29): "Os que me acusam de não apresentar provas, eu devolvo a acusação. Apresente provas de que ele não é fraudável".

"Não tem como se comprovar que as eleições não foram ou foram fraudadas", disse, minutos depois.

"Não temos provas, vou deixar bem claro, mas indícios que eleições para senadores e deputados podem ocorrer a mesma coisa. Por que não?", apontou em um terceiro momento.

Ao anunciar, em alto e bom som, e repetir que tem "indícios", pateticamente gera vergonha alheia. Um presidente da República que usa os microfones do cargo para juntar a militância, com a qual pretende reunir o "seu exército", que talvez tenha a inspiração do ex-presidente Trump, que conclamou seus idolatrados para a invasão do Capitólio, num violento desafio à própria democracia. O argumento é a fraude, porque, como mau perdedor, não soube reconhecer que houve decepção e perda de confiança no seu governo e na sua liderança.

A popularidade do capitão se esgarça e ele recorre aos políticos profissionais para que encontrem fórmula para a sua sobrevivência, dando todos os dinheiros que poderiam se transformar em votos, que lhes assegure a volta, ou a permanência nos seus deliciosos cargos.

Assim é porque até o Centrão, com os seus volúveis e pragmáticos chefes, entende que a própria sobrevivência é o bem mais importante a ser preservado. Uma visita à biografia de cada um deles vai encontrar reverência a governos de todos os matizes. O discurso segundo o qual desalojar o centrão militar e entregar ao centrão civil seria um ganho institucional, olhando a democracia, em especial as eleições, como os maiores beneficiários, é uma ilusão. A troca de guarda não muda o que está sendo resguardado. E a joia é o capitão.

O capitão reformado está tentando todas as cartas. Entretanto, com a inépcia e limites cognitivos que lhe são peculiares, comporta-se como um elefante em loja de vidros, mas não se incomoda em quebrar tudo, porque tem a sua própria cenoura: livrar-se de ameaças que pairam sobre si, como a espada de Dâmocles: um juízo internacional com denúncia de prática de crime contra a humanidade, e outras investigações menos vistosas e edificantes, como a prática de "rachadinhas" no seio familiar.

Tanto a ser desvendado, mas não apenas. Tem a CPI da Pandemia fazendo o inventário dos malfeitos que fazem do Brasil um exemplo diferente daquele que quer nos impingir pateticamente um meio ministro da Saúde, o tal Queiroga, que tenta engrossar uma narrativa de competência e de orgulho pela vacinação de brasileiros e de brasileiras que entregaram mais de 550 mil vidas e milhares de outros que vivem a sequência da Covid-19.

Conta o capitão que os recursos e os poderes entregues nas mãos de Ciro Nogueira e de Arthur Lira o livrem da mais de centena de pedidos de impeachment. Por enquanto, há um discurso afiado, na ponta da língua de Lira, para quem o momento não é para que se faça alguma "ruptura institucional". Esquece que ruptura institucional é ação que contraria leis, normas estabelecidas. O impeachment não é uma ruptura institucional, é um recurso das instituições, que se vale de condicionantes claros, definidos, para ser votado.

O capitão mente. A milícia digital se mobiliza.

O Congresso e o STF não podem seguir o exemplo do PGR e normalizar o repúdio institucional do capitão. Aras não é um modelo a ser seguido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL