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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Pacifismo do Taleban e equilíbrio de Bolsonaro: para quem crê em Papai Noel

25.nov.19 -O presidente Jair Bolsonaro, no Planalto - Pedro Ladeira/Folhapress
25.nov.19 -O presidente Jair Bolsonaro, no Planalto Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

18/08/2021 15h55Atualizada em 18/08/2021 15h58

O presidente do Senado, em tom quase sussurrante, tenta demonstrar ao país que a fera pode ser domada com canções de ninar. Anunciou, ao final de encontro com o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Luiz Fux, que levou a proposta de retomada de diálogo entre os Três Poderes, para que sejam superadas as dificuldades que prenunciam crise institucional, com ameaças seguidas do capitão e de seus seguidores à ordem democrática.

O presidente do STF informou, na abertura da sessão do plenário da Corte, que o diálogo seguia, ainda que o cronograma de conversas estivesse suspenso. Há interlocutores sensíveis à pauta da defesa democrática. Mas, a gritaria do outro lado da Praça dos Três Poderes, no Palácio do Planalto, impedia que o capitão escutasse os apelos por educação, serenidade e compostura.

Até onde a capacidade de escuta do capitão se desenvolveu, pela pressão do Judiciário e do Legislativo, é uma incógnita, mas os fatos do dia nos oferecem parâmetros para reflexão.

Uma grande dúvida esteve ontem na pauta de comentaristas, sobre as declarações de porta-vozes do Taleban, que deram uma entrevista coletiva à imprensa internacional para anunciar que exercerão o poder respeitando os direitos humanos e, em especial, das mulheres, que, pela leitura e interpretação estrita dos cânones islâmicos feitas por eles, não podem estudar, trabalhar, usar roupas que lhes deixem alguma parte do corpo descoberta, entre outras coerções e limitações.

O Taleban surpreendeu o mundo ao tomar Cabul, capital do Afeganistão, enquanto a expectativa da comunidade internacional, liderada pela autoconfiança dos Estados Unidos, era de que os insurgentes radicais só chegariam àquela cidade dois meses mais tarde. Foram cenas aterrorizantes da população apavorada, que lotou o aeroporto para fugir do jugo Taleban, com pessoas se atracando a trem de pouso de avião para tentar escapar do país.

Com o poder tomado, os jovens porta-vozes, exercitando princípios de Relações Públicas, falam em entrevista coletiva à imprensa mundial e tentam assegurar e acalmar a opinião pública mundial, sobre o compromisso do Taleban de respeitar os direitos das mulheres e das meninas. Era uma tentativa de apagar uma história de violência, brutalidade e intolerância dos terroristas.

Os novos donos do poder toleraram, no dia 1 da ocupação de Cabul, uma manifestação de mulheres nas ruas. As mulheres puderam ir para casa após o protesto. A trégua, porém, não durou 48 horas. Pelo menos três morreram reprimidas com tiros de soldados do Taleban.

No Brasil, temos os bombeiros, amortecedores - como se designa Ciro Nogueira, alçado à posição de ministro-chefe da Casa Civil, cuja função é reduzir a fricção institucional que põe em dúvida a vitalidade da saúde da democracia brasileira. As cenas de República bananeira correram o mundo, com o comboio vergonhoso de uma parada militar desenxabida, com pretexto idem.

Além de Pacheco, Fux conversa com Ciro Nogueira. Novamente a cantilena de pedido de moderação e responsabilidade pelo capitão. Mais um estafeta para levar a mensagem, o apelo, que o próprio capitão já deve ter ouvido de muitos lábios. Embirrado, ainda procura o pretexto para voltar atrás na sua verborragia, alertado que tem sido para as consequências penais das suas falas. Mas, e o que dizer à sua tropa? Talvez a agência de Relações Públicas do Taleban tenha recomendações.

Na promessa feita à Lira, presidente da Câmara, de que se calaria diante da fragorosa derrota da anacrônica proposta de ressurreição do voto impresso, sinônimo de voto de cabresto - auditável, sim, pelas milícias - o capitão agiu com a mesma rapidez que as garantias dadas pelo Taleban à opinião pública mundial.

Resta ver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL