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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Candidato "terrivelmente evangélico" de Bolsonaro não vai para o STF

André Mendonça e Jair Bolsonaro  - Carolina Antunes/PR
André Mendonça e Jair Bolsonaro Imagem: Carolina Antunes/PR
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

20/08/2021 22h56Atualizada em 23/08/2021 13h59

O capitão já foi informado de que o seu indicado "terrivelmente evangélico" para a vaga de ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) não deve assumi-la. O senador Davi Alcolumbre poderá explicar na próxima semana que não faz sentido dar vazão ao desejo do capitão em indicar quem quer que seja para uma instituição que vem desancando e tentando desacreditar. Não faz sentido um presidente da República, que questiona a decisão de um juiz, propondo impedimento dele porque não concorda com o seu julgamento, querer povoar o Tribunal.

A ideia do capitão em pedir o impedimento de dois ministros - Luís Roberto Barroso, presidente do TSE, e Alexandre de Moraes - resultou na primeira interferência medianamente bem-sucedida do amortecedor do Palácio do Planalto, Ciro Nogueira, que negociou e obteve um pedido só. O capitão cedeu: trocou dois pedidos de impeachment por um - de Moraes.

A desculpa apresentada pelo capitão para que o pedido de impeachment fosse feito - os mandados de busca e apreensão contra Sérgio Reis - é uma desculpa amarela. Já era do conhecimento dele que iria acontecer. Não foi uma surpresa. O Aras encaminhou o pedido ao STF no início da semana. E mesmo o PGR não teve como se negar a agir diante do absurdo dos áudios e vídeos do cantor passadista na conclamação a um levante antidemocrático. Optou pelo caminho mais brando: da busca e apreensão, quando havia gente do lado querendo que fosse pedida prisão do boquirroto com veleidades ditatoriais.

O capitão pagará um preço. Alto. O STF também. Vai conviver com dez ministros - ou seja o empate nas decisões -, mas reconhecendo que, neste momento, a Corte está unida em torno da defesa da institucionalidade. Portanto, pode conviver com a dificuldade de ter empate em votações, ou seja, risco de impasse. Mas, isso não deve acontecer. Os ministros estão passando por cima das idiossincrasias pessoais e doutrinárias para manter o próprio STF.

O gesto do capitão, considerado histórico, tanto pelo ineditismo quanto pela petulância de apresentar um pedido de impeachment contra um ministro do STF, é descarado. Uma tentativa de seguir no seu esforço de mobilização da sua tropa, que está minguando. Segue seus instintos, que miram na criação de fatos que cairão no vazio à custa de estresse da democracia. Foi assim no delírio do voto impresso, e a cada dia, ou semana, tenta uma pauta nova para alimentar os robôs das milícias digitais.

André Mendonça será "cordeiro" sacrificado no altar dos desvarios do capitão. O advogado fiel, cuja indicação foi feita pelo capitão no dia 13 de julho, teria as credenciais para ocupar a vaga deixada pelo ministro Marco Aurélio, aposentado no dia 12 de julho. O rito de confirmação do nome do ex-AGU (advogado-geral da União) precisa de votação do Senado Federal, que inclui a sabatina na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça). A decisão de pautar a sabatina é do senador Davi Alcolumbre, presidente da comissão. O senador não deverá pautar.

Nos Estados Unidos, o Congresso cozinhou em fogo lento um indicado de Barack Obama para uma vaga na Suprema Corte. Obama não conseguiu nomear o juiz Merrick Garland para a Suprema Corte, na vaga deixada por Antonin Scalia. O Comitê Judiciário à época, dominado pelos republicanos, nem sequer concedeu audiências ao juiz indicado para sabatiná-lo. A compensação foi dada ao juiz por Joe Biden, que o nomeou procurador-geral de Justiça.

Davi Alcolumbre não se inspira no Senado conservador dos Estados Unidos. Ainda que tenha ouvido apelos, nos últimos dias, para seguir com o andor de André Mendonça, o desvario delirante do capitão reformado, em pedir impeachment de Alexandre de Moraes, levou por água abaixo os argumentos de que seria o momento de acenar com boa vontade.

O STF não engoliu a desfaçatez. Repudiou a estultice do capitão (digo eu, estultice, não o STF) e não silenciou diante do questionamento da autonomia de julgamento de um juiz. É o tal capitão querendo ser juiz do juiz.

Enquanto isso, o Pacheco, presidente do Senado, tenta se equilibrar nu discurso insosso, justificando que "qualquer cidadão" pode pedir impeachment de um ministro do STF. Conversa. Quer ser visto como pacificador olímpico e conquistar o espaço de uma idealizada candidatura de terceira via para a Presidência da República. Doce ilusão. Não é moderado, é medroso mesmo.

Talvez Alcolumbre possa ensinar um pouco a seu sucessor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL