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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro quer desobediência de militares à lei, para benefício próprio

25.jul.2019 - Jair Bolsonaro visita o Colégio Militar da Polícia Militar V (CMPM V) Ten Cel Cândido José Mariano, em Manaus - Bruno Zanardo/Estadão Conteúdo
25.jul.2019 - Jair Bolsonaro visita o Colégio Militar da Polícia Militar V (CMPM V) Ten Cel Cândido José Mariano, em Manaus Imagem: Bruno Zanardo/Estadão Conteúdo
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

03/09/2021 16h15Atualizada em 03/09/2021 16h15

O capitão deve ter cabulado a aula de Moral e Cívica que fazia parte do currículo escolar nos tempos de escola dele. Utiliza de maneira deliberadamente confusa o 7 de setembro, como data de Independência do Brasil, para justificar a presença de policiais militares nas manifestações que está convocando. Civismo, para ele, é apoio aos seus delírios.

As palavras de ordem que inflamam os discursos do capitão confundem liberdade de expressão e liberdade de manifestação com chamamento ao ódio e provocação às instituições - em especial contra "um ou dois", como se refere o capitão, sem citar aqueles que deseja ver longe do poder de investigar os seus desmandos - os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso.

O capitão está testando o seu talento de animador de auditório e tenta desesperadamente motivar a sua tropa para ocupar a Avenida Paulista no dia 7 de setembro e produzir uma foto que desminta aquilo que a população brasileira já grita nas pesquisas de opinião, devolvendo-o à própria insignificância representativa.

Nas suas falas dos últimos dias, o capitão estimula a participação dos policiais militares nas manifestações que está liderando, em favor de si mesmo e da sua família. O discurso de estímulo às polícias, para que marchem por ele, é coerente com sua biografia militar.

O ato de desapreço pelas regras que definem a conduta dos policiais militares, dos soldados de uma maneira geral, é a defesa à transgressão dos regulamentos dessas profissões, que claramente proíbem a participação em atos políticos. Pela razão simples e cristalina segundo a qual são eles e elas, os militares, parte de forças de defesa do Estado e não agentes de governo.

Foi pelo desrespeito às normas que o então capitão foi reformado, ex officio, isso quer dizer, por decisão unilateral do comando, retirado da ativa do Exército, por causa de comportamento indisciplinado.

Ao tentar confundir, pela retórica confusa, a defesa da ocupação das ruas pelos policiais militares, no dia 7 de setembro, como um ato patriótico, o capitão utiliza o que é a sua mais conhecida forma de comunicação: a ambiguidade. Se a ignorância dele é real ou apenas um recurso, já foi e segue sendo tema de debate. A limitação cognitiva, a falta de vocabulário e capacidade de compreensão sobre temas que exigem mais do que cinco minutos de leitura são fato. Não é disso que se trata. Neste caso, coisa superada.

Às vésperas de 7 de setembro, o capitão faz fake news em "live". Mente sobre o significado de civismo, de patriotismo, quando defende que encampar a adesão ao seu delírio, ser parte de uma manifestação que aproveita a data da Independência, pelos policiais militares, é uma homenagem à Pátria. Mentira.

A fala embusteira pode ser apenas mais um libelo desesperado, quando oficiais de Justiça se preparam para bater às portas dos filhos numerados, para que deem explicações sobre práticas gentilmente chamadas de "rachadinhas", quando o nome no Código Penal é estelionato. E quando a CPI da Pandemia aprofunda na descoberta de conexões espúrias tipificadas como crimes de corrupção, em plena crise humanitária que enterrou mais de 580 mil pessoas no Brasil, vítimas da incúria.

Sobre as dificuldades intelectuais e o raso conhecimento que aparecem na desorganização do discurso, na desconexão entre gesto - manipulação involuntária, tiques e hãhãs - há pouco a ser acrescentado. Tudo visível a olho nu.

Talvez valesse a pena investigar a obsessão, a fixação fálica em se mostrar poderoso. A necessidade de sexualização de qualquer coisa, até mesmo a urna eletrônica, que na última "live" - a mesma na qual conclama os policiais a irem às ruas por dever cívico - dá uma piscadinha ao dizer que a "urna é impenetrável". Mas, esse é outro assunto.

No final das contas, o que o capitão quer mesmo é que as polícias esqueçam a lei e o salvem de acertar as contas com a Justiça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL