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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A estratégia é desacreditar relatório e transformar Bolsonaro em vítima

Arthur Lira e Augusto Aras -  Cristiano Mariz/Veja; Sérgio Lima/Poder 360
Arthur Lira e Augusto Aras Imagem: Cristiano Mariz/Veja; Sérgio Lima/Poder 360
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

28/10/2021 12h18Atualizada em 28/10/2021 15h07

A tentativa de confundir e de ludibriar a opinião pública sobre a existência de crimes praticados pelo capitão no manejo da pandemia começou assim que o relatório da CPI foi entregue ao doutro Aras, procurador-geral da República.

E teve um arauto estridente na Câmara dos Deputados. A aparente indignação de Lira, na defesa de seus colegas citados para indiciamento pela CPI, é apenas uma ilusão de ótica. Na verdade, Lira está enfrentando refluxo de poder no seu comando da Casa. Experimentou uma derrota na PEC do Ministério Público, quando 11 deputados tiraram dele a possibilidade de intervir no Conselho do órgão. Saiu brandindo ameaças.

Agora, tem o desafio da PEC dos Precatórios, fonte de recursos para a campanha de 2022, travestidos de Auxílio Brasil. E o Lira está na berlinda. As pessoas estão entendendo para onde vai a dinheirama: emendas obscuras para fazer benesses com o chapéu dos outros - no caso, o dinheiro público.

A briga de Lira é também com o seu desafeto local, Renan Calheiros. Mais uma vez, as brigas intestinas dão o tom do discurso do presidente da Câmara. É apenas uma disputa feudal. A tentativa de criar uma história e disputar holofotes.

Versões de fragilidade dos relatos do documento da CPI, insuficientes, segundo "fontes", para indiciar ou condenar autoridades públicas com foro privilegiado, começam a pipocar para desviar o que se sabe.

O horror da tragédia - deliberadamente provocada, para sustentar a tese de que o país seria o curral de um rebanho a ser contaminado, para que voltasse a sustentar a economia da fazenda - tem aqui e acolá falas visando desacreditar o relatório da CPI. Plantação, na tentativa de disseminar fake news.

A CPI descortinou que nem os brasileiros nem as brasileiras são parte de um rebanho dócil, ainda que, entre a população, a ignorância e a aderência acrítica tenham permitido aceitação de discursos descabidos. E isso levou à morte de muitos.

O doutor Aras, posando de estadista da legalidade, recebeu os senadores e a senadora Tebet, para fazer uma fala convencional de sustentáculo da interpretação da Constituição. Invoca a lei como marcador essencial para agir. Houvera ele demonstrado apreço inconteste por tal diretriz, dormiríamos e acordaríamos hoje todos tranquilos. O que será feito é o que seria feito.

Quando se deseja não resolver um problema, reza a cartilha dos omissos, tíbios e pusilânimes, cria-se uma comissão para empurrar com a barriga. Evidentemente, a expectativa que se tem é de que o doutor Aras tome a si a análise do relatório e não incumbir uma comissão para "análise prévia".

O que é sabido, porém, pela biografia do PGR, é de uma vocação inegável de curvar-se diante daqueles - ou daquele - que podem lhe garantir sobrevivência funcional, com chances de uma promoçãozinha para ocupar cadeira no STF (Supremo Tribunal Federal). O problema é que isso esbarra no Senado, a quem o doutor precisa atender. A questão é a quem será fiel o doutor?

De resto, há uma disputa pelos holofotes. De um lado a CPI, na criação do Observatório da Pandemia e na romaria às autoridades, para que se comprometam publicamente em analisar o relatório. Do outro, enfrenta-se a pirotecnia do capitão, fértil em criar factoides para distrair a população e alimentar o ódio entre os seus seguidores. E não apenas.

Mesmo o capitão encontrou um rival dentro da sua turma: o Guedes. Especialista em dizer e desdizer-se, e também em classificar - embora não se possa avaliar as qualidades cognitivas de seus colegas de governo. No caso, o astronauta, atualmente tentando aterrissar no Ministério da Ciência e de Tecnologia, identificado por ele como "burro".

São pautas que disputam com o assunto mais importante, urgente e necessário: a responsabilização de agentes públicos. Por omissão ou desídia, levando à tragédia humanitária que se tornou a pandemia da covid-19 no Brasil.

Os senhores senadores e senhoras senadoras precisarão mais do que criar um observatório para envergonhar publicamente as autoridades que não querem trabalhar. Será preciso demonstrar ao Lira que a sua cadeira não é capitania hereditária. Que a Constituição não é a lei de Aras.

Será imperativo que se crie um sistema de acompanhamento, em tempo real, de cada ação e omissão, para que todos e cada um dos familiares, amigos e sobreviventes sequelados pela covid possam contar suas histórias.

O capitão não é vítima. É algoz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL