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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro usa cloroquina como Chacrinha usava bacalhau

7.dez.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (PL), durante evento no Palácio do Planalto - Adriano Machado/Reuters
7.dez.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (PL), durante evento no Palácio do Planalto Imagem: Adriano Machado/Reuters
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

24/01/2022 12h00Atualizada em 24/01/2022 13h26

O ex-capitão veio para confundir e ganhar visibilidade no palco das eleições, quando a audiência das pesquisas de opinião o mostra como derrotado. Em mais um esforço de marketing, pega o seu bacalhau e joga no distinto público. Quem vai querer! O bordão do grande animador Chacrinha está travestido de cloroquina, em mais uma tentativa de se manter em cena.

É um esforço hercúleo a tentativa de desdizer as insídias, deliberados libelos contra a vida, esparramados com objetivo político-eleitoral na batalha contra a vida. Falas toscas, matreiras e perversas se disseminam pela força da ambiguidade, do senso comum, e tentam minar a crença na pesquisa, nas instituições, na ciência, na vida.

Cientistas, médicos, pesquisadores, estudiosos de imunologia, epidemiologia e a imprensa consequente estão se esvaindo em perplexidade diante de destemperos de assentimentos pelo uso de medicamento nocivo para a saúde e oferecido como tratamento para a Covid-19, agora de volta ao noticiário. Hidroxicloroquina e assemelhados retornam como personagens de filmes de terror, que assombram depois de terem sido decapitados.

A tentativa de explicar o comportamento de um tal Hélio Angotti Neto, que sai da obscuridade para promover a escuridão, só pode entendida como parte de um ardil determinado a minar a ciência em nome de um projeto de poder autoritário. Na cartilha da ditadura que se expressa nos movimentos óbvios de desafio às instituições democráticas, é fundamental espalhar o descrédito ao conhecimento.

A ômicron é a cepa do coronavírus que vem se destacando na pandemia pela velocidade com que contamina as pessoas. Num cenário de tempestade perfeita, o vírus da Covid-19 se junta ao vírus da Influenza para reeditar cenas de hospitais lotados, UTIs cheias e serviços de saúde super demandados. Doentes, muitos, mortos, menos, por conta do esforço da ciência e da pressão pública pela vacinação.

Se por um lado a pandemia vai provocando surpresas em relação à maneira como o vírus se dissemina, também revela sobre a capacidade de a ignorância ser de contágio igualmente veloz. O tal secretário de Inovação do Ministério da Saúde, por exemplo, que perdeu uma grande chance de ficar calado, joga sobre si holofotes que nos permitem identificar, com meridiana clareza, que sabujice é pré-condição curricular para ocupar escalão superior no governo do ex-capitão.

A possibilidade de alguém pensar ou apenas seguir com os protocolos testados e aprovados por pesquisas - como a Anvisa, na aprovação a Coronavac para uso pediátrico - enseja a ira daquele ex-capitão determinado a fazer com os órgãos de controle e de regulação sejam a expressão dos seu único desejo: manter-se no poder.

Poderemos, em alguns anos, olhar esse momento pela lente da tragédia. Poderemos reconhecer esses personagens medíocres, estúpidos, lenientes, como agentes da dor, da incerteza, do infortúnio para a população do país. Vamos igualmente poder reconhecer naqueles que aplaudem tais seres o poder da ignorância. Mas antes vamos passar por esse calvário.

Por mais Angottis, Pazuellos, Queirogas, Arthur Liras, por mais mediocridade que tenhamos que confrontar para atravessar o Rubicão, será inevitável passar para o outro lado do rio.

A população brasileira está experimentando no dia a dia a dureza da incompetência, da sabujice, da mediocridade, dos maus modos e maus bofes de um governo acidental. Por um acidente histórico o ex-capitão chegou ao Palácio do Planalto, mas será apenas pela vigilância e determinação do eleitor que voltará para os esgotos.

É cansativa a repetição do que é evidente sobre a vontade do ex-capitão e de seu entorno em saquear a democracia.

Mas, diante do terror e da disposição incansável que os motiva, é preciso superar esse "déjà vu" de delinquência e repetir, todo dia, toda hora, que não poderá mais haver lugar na nossa história para retrocesso no direito à vida.