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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desgoverno Bolsonaro tenta esconder corrupção para manter o "mito"

Jair Bolsonaro acompanhado dos filhos Flávio, Carlos e Eduardo - Reprodução/Flickr
Jair Bolsonaro acompanhado dos filhos Flávio, Carlos e Eduardo Imagem: Reprodução/Flickr
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

09/04/2022 13h42

O "mito" quer criar um mito: de que não há corrupção no seu governo, no seu desgoverno.

Mito, segundo o Aurélio, é um "relato fantástico, de tradição oral", "uma exposição alegórica de um fato qualquer".

O ex-capitão se animou com a autointitulação de mito sem escutar o que diz a palavra. E segue o Aurélio (sim, o dicionário): mito é a "construção mental de algo idealizado sem comprovação prática". E tem mais: "afirmação ou narrativa inverídica, que é disseminada com fins de dominação, difamatórios, propagandísticos, como guerra psicológica ou difamatória".

"No meu governo (desgoverno) não há corrupção!"

A afirmação, tantas vezes repetidas pelo ex-capitão, no mínimo, exclui o entendimento do significado da palavra corrupção. Não se pretende aqui oferecer uma aula púbica de consulta ao Aurélio (sim, o dicionário!), cujo trabalho precioso de traduzir a língua portuguesa contribui para que a propaganda, a mistificação, não desafie os fatos.

Corrupção é ato de corromper. E: deterioração, putrefação, adulteração das características originais. Aquele que corrompe, o corrupto, é o mesmo que se beneficia da deterioração que promove ou permite. O dicionário não estabelece uma escala que diferencie a pequena putrefação da grande putrefação. Ladrões de galinhas são ladrões. Não é o tamanho do roubo que define o ladrão, mas o gesto.

Rachadinha - nome carinhoso para peculato - é corrupção. É quando um funcionário, contratado para servir em um gabinete parlamentar, não trabalha e dá dinheiro para esse mesmo parlamentar. Ainda faltam explicações para as folhas de pagamento dos gabinetes parlamentares do ex-capitão e dos seus filhos.

Simular contratação de funcionário pago com recurso público, ficar com o dinheiro enquanto a pessoa contratada está a centenas de quilômetros, na praia, vendendo açaí e fazendo ginástica, como a Wal, contratada pelo ex-capitão e sem dar uma hora de trabalho no gabinete, é corrupção.

Permitir que sejam feitas negociações milionárias para a compra de produto - vacina - inexistente, é corrupção frustrada. E se calar convenientemente, quando fica sabendo pelo servidor público que melou a negociação milionária na "fantástica" compra da Covaxin, é corrupção.

Facilitar acesso de falsas autoridades morais - pastores - para fazerem culto em órgão público, para cobrança e recebimento de propina em ouro ou qualquer moeda, é cumplicidade com corrupção. É corrupção.

Desconhecer, por conveniência ou por lassidão proposital de mecanismos de governança, pelos quais é responsável, fazendo andar licitação com sobrepreço milionário, que tira dinheiro do sistema educacional e transfere cerca de R$ 700 milhões para pessoas que teriam ligação direta com o desgoverno, é corrupção.

Fazer emenda parlamentar de patrocínio de R$ 1 milhão para realização de evento de surfe por entidade que nunca surfou, é corrupção.
O "mito" da honestidade, da lisura do desgoverno do ex-capitão, também é desafiado pelo histórico dos seus benfeitores. Um Valdemar que já foi preso por corrupção, um Ciro Nogueira que deve explicações sobre corrupção, filhos que têm patrimônio superior à renda declarada, uma mansão em Brasília que os proventos como senador não cobrem desmentem o "mito".

Há muitas explicações devidas e embarreiradas por um subserviente procurador-geral da República. Deveriam os pastores dourados lembrar ao PGR a advertência bíblica.

Quando Cristo entra em Jerusalém, nos dias que antecedem ao seu martírio e os seus discípulos o louvam publicamente, outros pedem que eles se calem na propagação dos milagres do Filho de Deus. O Cristo diria, em Lucas 19:40: "E, respondendo Ele, disse-lhes: Se estes se calarem, as pedras clamarão!"

As pedras clamarão aos ouvidos agora moucos do procurador: no desgoverno do ex-capitão a corrupção só mudou de nome.