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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro assume que é calmante e até revela a dose do remédio

O presidente Jair Bolsonaro (à esq.) e o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira - MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO - 12.ago.2021
O presidente Jair Bolsonaro (à esq.) e o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira Imagem: MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO - 12.ago.2021
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

12/04/2022 11h24Atualizada em 12/04/2022 14h01

O ex-capitão informa que o toma-lá-dá-cá de recursos públicos e cargos na administração federal acalma os parlamentares. A dose depende do stress, da queixa e do retorno em votos para o projeto de reeleição do "médico".

Durante o longo período da pandemia, um medicamento teria sobressaído no volume de consumo por uma população estressada pelas limitações impostas pela covid-19: o Rivotril. O remédio teria o condão, administrado cuidadosamente pelos médicos a seus pacientes, de ajudar na travessia destas restrições durante a pandemia.

Aparentemente, a descoberta científica do ex-capitão colide com os efeitos produzidos com o remédio que induz insones a dormir, os agitados a baixarem adrenalina. O ex-capitão tem outra receita, ao que parece mais eficaz do que a cloroquina. Enquanto esta é danosa, mata o doente, a nova estimula a indolência para realizar gestão pública responsável.

O doutor ex-capitão oferece cargos e faz vistas grossas para denúncias de pessoas que atuam em seu nome e demonstram pouca atenção republicana com o dinheiro público. É a receita que acalma.

O ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, calmíssimo, que divide com o Arthur Lira o comando do país - diga-se, a distribuição de medicação aos parlamentares - aparece no noticiário como beneficiário de recursos na forma de uma rede de escolas fantasmas. É uma calmaria sem igual. De funcionários fantasmas nos gabinetes parlamentares, agora são escolas fantasmas. Todos calmíssimos.

O ministro imediato do ex-capitão, o Ciro Nogueira, teria no seu estado, o Piauí, uma rede de 52 escolas que existem apenas no papel de liberação de recursos. A fonte de verbas para a rede é o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Sabe-se assim que o loteamento do Ministério da Educação fornece óbolos não apenas a pastores, mas aparentemente a gente igualmente próxima ao ex-capitão e ao timoneiro da sua estratégia de sobrevivência política. Todos bem calmos.

O ex-capitão tranquiliza os seus, não apenas com a distribuição de cargos e verbas. O receituário é mais complexo. Faz de conta que não existe um orçamento secreto de bilhões de reais, veta de mentirinha um fundo eleitoral de mais de R$ 5 bilhões (para que o Congresso rejeite o veto) e também fecha os olhos para denúncias de malfeitos dos seus próximos.

De um lado, um Arthur Lira artífice do grande caixa da campanha eleitoral, de outro, um Ciro Nogueira, filtro dos repasses das verbas públicas oficiais e, completando a trinca, um Valdemar da Costa Neto, ex-presidiário condenado por corrupção, organizando as "chapas". São quatro no jogo e, nas laterais, jogando junto: filhos numerados e adesistas com patente militar.

Os fantasmas de funcionários - funcionários-fantasmas, os fantasmas das escolas - construídas no imaginário de quem precisa e no discurso de ocasião de candidatos a uma boquinha no Congresso Nacional ou nas prefeituras - e o fantasma das mentiras, ocupando redes sociais e canais de distribuição de mensagem, se juntam, agora, às habilidades calmantes do ex-capitão.

O aparelhamento dos órgãos de controle do Estado, transformados em assessorias do presidente da República - PGR, PF, COAF - não teria sido suficiente para amansar os parlamentares. A tentativa de Lira de mudar regras de governança da Petrobras, por exemplo, para que lobistas pudessem entrar pela porta da frente e mandar na empresa, é uma demonstração de que, na prateleira dos medicamentos da estratégia governamental, a cura para o stress tem uma receita: uma dose de orçamento secreto, mais uma injeção de cargos bem pagos e uma colher de chá da Polícia Federal, com um banho de imersão na sonolência induzida da Procuradoria Geral da República.

Se a cloroquina não funciona para tratar covid-19, quem sabe o Rivotril do receituário do ex-capitão seja remédio suficiente para adormecer a opinião pública para os desmandos, para a corrupção, incompetência e confusão que é o desgoverno.