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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lira aposta em Bolsonaro-teflon; esquece que o produto pode dar câncer

Arthur Lira, na Conferência Internacional Datagro que aconteceu em outubro, em São Paulo - Aloisio Mauricio /Fotoarena/Folhapress
Arthur Lira, na Conferência Internacional Datagro que aconteceu em outubro, em São Paulo Imagem: Aloisio Mauricio /Fotoarena/Folhapress
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

22/04/2022 13h08Atualizada em 22/04/2022 13h08

Arthur Lira não se envergonha.

Artífice da política teflon para a reeleição do ex-capitão, aposta que nele nada ruim adere. E faz o papel do teflon. Transforma a sua ideologia - aderente - não aderente - numa estratégia de campanha eleitoral. Como se fosse uma boa coisa. Porque confia que ninguém se importa se a panela revestida com teflon pode provocar câncer. Faz o jogo da proteção do candidato à reeleição, como o químico que reveste panelas para impedir que a comida grude.

Em 1941, a Dupont registrou um produto que revolucionou, primeiro entre os norte-americanos e depois no mundo, a maneira de selecionar utensílios de cozinha. As panelas antiaderentes em que nada grudava, revestidas com teflon. Era sinônimo de praticidade e até de saúde! Entretanto, nas últimas décadas, o produto consagrado pelo uso fácil passou a ser investigado como importante agente cancerígeno. De nome complicado, o grupo de substâncias químicas conhecidas como "PFAS" (compostos perfluoroalquil e polifluoroalquil), é enorme. O nome simples é teflon.

Para evitar que alguma coisa "grude" no ex-capitão, usa o cargo de presidente da Câmara para tentar proteger o deputado marombado, o tal Daniel Silveira. Uma gentileza, a retribuição a quem lhe deu tanto poder para manuseio de bilionário orçamento de verbas públicas.
A política-teflon cria em paralelo a fala do coitadismo, da vitimização do desgoverno do ex-capitão.

O ex-capitão é uma vítima. Vítima de governadores, do STF (Supremo Tribunal Federal), da mídia (fonte de mentiras e de campanhas). E a corrupção do desgoverno é campanha sórdida. A verdade da tortura é perseguição da mídia.

A pandemia com mais de 660 mil mortos; a maior inflação em uma década; gasolina com preços escandalosos; miséria e desemprego "nunca vistos". Tudo perseguição.

A química antiaderente, por outro, lado se materializa também numa cesta de "bondades" de ocasião - que vai do Auxílio Brasil ao saque do FGTS, para o brasileiro, a brasileira, pagar as dívidas do desemprego.

Se o ex-capitão ficar com a boca fechada - como ficaram todos aqueles que não associaram o uso do teflon a doenças mortais inexplicáveis - tudo vai se resolver.

O ex-capitão com ajuda conveniente do seu exército. Não aquele Exército das Forças Armadas que respeitam, reverenciam e cumprem a Constituição, mas o batalhão de asseclas que se curvam diante do candidato-teflon para se manter onde está, amparado no Congresso por Arthur Lira, o grande nanico.

Não me esqueci do Aras. Esse passeia na Europa, enquanto a sua subordinada nada encontra de provas para levar adiante investigações contra o ex-capitão, citado por pastores infiéis nas negociações ímprobas de verbas do Ministério da Saúde. Aras é um anteparo. Lira é uma propulsão. Aras cuida do passado; Lira quer controlar o futuro.

Lira é o porta-voz da não aderência a princípios morais que a sua posição exige. Ocupa o centro do desvario no repasse obscuro de verbas públicas, pelo manejo ardiloso do orçamento, para oferecer a seus cabos eleitorais recursos milionários que lhe garantam simpatias oportunistas em tempo de voto. Ambiciona manter o cetro do poder, a presidência da Câmara dos Deputados. E sabe como distribuir favores e atender o desgoverno do ex-capitão. Não se envergonha em sair na defesa de um marombado deputado que desacata e desafia a ordem pública, condenado pela Corte Suprema. Quer mudar regras no Congresso para proteger apadrinhados do ex-capitão.

Nessa estratégia do não aderente ao que importa, fica aderência ao que não presta. Teflon pode, sim, provocar o surgimento de tumores malignos, de câncer. A ciência investiga aquilo que está na fórmula do teflon: o que não adere e pode matar.

Não adere ao teflon-candidato e aos seus estrategistas a empatia; não adere o conhecimento, a ciência; não adere a responsabilidade, o compromisso com o bem coletivo. Atrai, sim, o descaso, o velado da máquina pública e a formação de um séquito de sabujos disponíveis a todo e a qualquer momento. Não se negam estes a prestar serviços variáveis, como bufões que riem de si mesmos, apenas em miserável autocomplacência, apenas para se manter com acesso aos banquetes palacianos.

Arthur Lira não se envergonha, mas teflon pode matar de câncer.