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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil de Bolsonaro: fim do SUS gratuito e das universidades públicas

Militares prestam continência a Bolsonaro - Presidência da República
Militares prestam continência a Bolsonaro Imagem: Presidência da República
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

24/05/2022 15h54Atualizada em 24/05/2022 15h57

O sonho do ex-capitão é um pesadelo para o Brasil: SUS cobrando do povo, fim da universidade gratuita e mais milhares de tropas espalhadas na América do Sul e no Caribe.

O desenho do futuro planejado pelos pseudointelectuais da caserna, que criaram um Brasil em 2035, baseado na ficção de um desgoverno que nega as conquistas nacionais - a começar pela cobrança dos usuários do Sistema Único de Saúde, pelo pagamento de mensalidades nas universidades públicas e pela desconstrução do Judiciário - a cartilha dos sonhos do ex-capitão. Um delírio tão nebuloso quanto perigoso, porque envolveu gente paga com recursos públicos para debater, pensar, escrever e publicar, com direito a festa, um documento delirante.

O planejamento do futuro, pensado na caserna e patrocinado pelos pensamentos obscuros de um radicalismo inconsequente - que não mede as consequências para a vida do povo brasileiro - é a tentativa de se criar um país que se baseará numa nova liderança política surgida em movimentos conservadores e liberais - assim autointitulados. Esquece, porém, que não tem a adesão da população, mas conta com o financiamento de verbas secretas, de parlamentares que se beneficiam de recursos públicos para comprar tratores, caminhões a preços descomunais e a financiar cartão corporativo de um ex-capitão que gasta o que não tem, tirando dos mais pobres.

O ex-capitão ensaia em gestos igualmente inconsequentes o desmonte do país para construir uma nação, em 2035, em que o povo seja apenas e simplesmente o financiador dos delírios de uma corte que já hoje se aproveita do que é pago em impostos ao governo para usufruir de salários milionários. O general - pega ladrão - Heleno que o diga, com o seu soldo acrescido generosamente por decreto presidencial.

Mas falemos do futuro desenhado pelos pseudointelectuais da caserna, que fazem exercícios como se a realidade pudesse se ajustar a eles, como a célebre cama de Procusto. O personagem da mitologia possuía uma cama em sua casa e convidava viajantes a se deitarem. Caso fossem maiores que a cama, cortava as pernas deles; se fossem menores, esticava os membros, até que, soltos, pudessem ficar do tamanho da cama. Um dia apareceu Teseu - aquele que matou o Minotauro - e levou Procusto a se deitar na própria cama. Maior que ela, teve a sua cabeça decepada. Assim parou de aterrorizar as pessoas para que se adequassem à sua realidade.

O Brasil do tal estudo de nação em 2035 é proposto pelos pseudointelectuais estratégicos da caserna, motivados pela arrogância própria daqueles que têm um filtro paranoico para descrever o mundo (talvez no mesmo espírito de uns outros que, sem entender muito bem do que falavam, fizeram recomendações primárias para aumentar a segurança das urnas eletrônicas - envergonhando a si mesmos). Inclui ações de "dissuasão regional", ou seja, armamento nas fronteiras e gastos militares para assegurar a liderança brasileira na América do Sul e Caribe, em nome de uma soberania nacional. Ora, venhamos e convenhamos, soberania nacional buscando parceiros de negócios para privatizar a Amazônia...

Inventaram como representantes da maioria do povo brasileiro uma tal categoria de conservadores-evolucionistas... E não para por aí a estultice. Nas salas de aulas das universidades do Brasil que teria ficado para trás, os estudantes só podiam pensar como os professores, numa luta "de doutrinação político-partidária". Mas isso teria sido resolvido, segundo os autores do Brasil de 2035, com a cobrança de mensalidades nas universidades.

É necessário citar que a base do Brasil do ex-capitão e dos pseudointelectuais da caserna está descrito no livro "Guerra pela Eternidade", de Benjamim Teitelbaum, no qual revela a gênese ideológica da direita populista centrada num pensamento que une o ex-capitão, Putin, Viktor Orban e Bannon, aquele sujeito que ajudou a eleger Trump.

A proposta do Brasil de 2035 é apenas uma paródia daquele pensamento nazifascista.

Mas que não pode ser motivo de troça, e sim de preocupação. Tanta gente se ocupando em criar uma cama de Procusto!