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Otávio Rêgo Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A mediação da China sairá cara para o mundo

25.jan.2022 - Peças de xadrez à frente das bandeiras da China e de Taiwan em foto de ilustração - Dado Ruvic/Reuters
25.jan.2022 - Peças de xadrez à frente das bandeiras da China e de Taiwan em foto de ilustração Imagem: Dado Ruvic/Reuters
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Otávio Rêgo Barros

Otávio Rêgo Barros é general da reserva e doutor em ciências militares. Comandou as tropas brasileiras no Haiti. Foi chefe da comunicação social do Exército e porta-voz da Presidência da República.

Colunista do UOL

08/03/2022 00h41

Já estive na China, na Arábia Saudita e nos Estados Unidos. São países lindos e historicamente relevantes. Não conheço a Rússia.

Tanto em Pequim, como em Riad, a respiração da população é contida. Os movimentos são milimetrados. A cabeça está sempre baixa. Há receio em desagradar.

Na América (como os estadunidenses gostam de chamar), ao contrário, você se sente desobrigado de ritos. A agitação é uma constante. A liberdade está em cada esquina.

Um grupo de pessoas vem defendendo, em comunicados incompreensíveis, que a Rússia, a China e a Arábia Saudita são os bastiões conservadores da humanidade contra um Ocidente comunizado. Isso justificaria uma cruzada ideológica em sentido contrário.

Desde a queda do muro de Berlim, as lideranças ocidentais se acomodaram a um mundo unipolar, acreditando que a democracia de Rousseau, com as devidas adaptações, reinaria doravante em todos os quadrantes do planeta.

Ao longo da década de 1990, o esfacelamento da União Soviética, a expansão do liberalismo europeu em direção ao Leste, a liderança econômica americana inconteste e a China buscando espaço no tabuleiro mundial de poder eram as referências às nações que assistiam ao jogo.

A adolescência do século XXI parece fortalecer um outro tipo de Nacionalismo como sucessor da Nova Ordem Mundial (NOM).

Há pensadores defendendo que os países assumam, como objetivo de Estado, o rearmamento (incluindo o nuclear), a independência das fontes energéticas terceirizadas e a conquista de novos celeiros produtores de grãos para alimentação.

Esse mundo imprevisível exigirá um rearranjo de forças. A pax da águia americana não impõe mais o respeito de outrora.

O conflito na Ucrânia fez o mundo acordar para a diplomacia da realidade. Do manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Os europeus se deram conta, tardiamente, que as batalhas em Kiev, Donbass, Odessa e Mariupol são consequências de decisões equivocadas tomadas na virada do século passado.

Há graves riscos aos países formadores dos ideais democráticos de entrarem no refluxo de liberdade. A onda ganha força e eles precisam resistir.

Mas não encontram ferramentas para conter o expansionismo de Putin. Apertam o cerco com medidas econômicas, já que as militares são impensáveis.

Seus condutores perderam a visão estratégica. Atuam como em um voo de galinha, resolvendo no nível tático as crises que se sucedem a cada semana.

Por incapacidade de ler a história, empurraram a Rússia para o colo da China que se posiciona como mediadora entre as partes.

O urso russo, forte militarmente, mas não economicamente, diante de múltiplas pressões, poderá ser obrigado a aceitar essa interferência.

O dragão chinês não tem pressa. Trabalha para se colocar à frente dos Estados Unidos como maior economia do mundo e, quiçá, potência militar.

A Rússia levará anos para equilibrar-se em face dos gastos após essa aventura.

A ascensão e queda das grandes potências é um movimento natural e histórico. O mundo pode estar entrando em um novo ciclo, mas não está acabado. Nem o Ocidente se comunizou como declarou impensadamente o grupo citado anteriormente.

Precisará, todavia, se ajustar. Paradoxalmente, a guerra insana e covarde na Ucrânia poderá ser a chave para essa acomodação.

Paz e bem!