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Otávio Rêgo Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A ONU precisa antecipar crises ou será personagem esquecido da História

Chega a 4 milhões de refugiados ucranianos, apontam Nações Unidas - Unsplash
Chega a 4 milhões de refugiados ucranianos, apontam Nações Unidas Imagem: Unsplash
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Otávio Rêgo Barros

Otávio Rêgo Barros é general da reserva e doutor em ciências militares. Comandou as tropas brasileiras no Haiti. Foi chefe da comunicação social do Exército e porta-voz da Presidência da República.

Colunista do UOL

03/05/2022 00h00

Sábado passado (30.04.22), a atriz Angelina Jolie visitou uma estação de trens na cidade de Lviv, no Oeste da Ucrânia, para prestar solidariedade aos milhares de deslocados que passaram a viver nos subterrâneos, após a invasão da Rússia ao território ucraniano.

A atriz é uma enviada especial da Agência de Refugiados das Nações Unidas (ACNUR). Seu papel é emprestar credibilidade àquele órgão e despertar para o mundo os desafios enfrentados por povos submetidos aos horrores das diásporas.

Conheci a Angelina em Porto Príncipe, no Haiti, logo após o terremoto que destruiu o país em 2010. O sismo ceifou mais de 250.000 vidas, entre haitianos, estrangeiros e pessoas ligadas à Missão das Nações Unidas para a estabilização do Haiti (MINUSTAH).

Figura carismática, engajada firmemente na proteção dos que vivem em situação de desesperança, disse-me em uma conversa na sede do Batalhão Brasileiro de Força de Paz (BRABATT):

- Coronel, é preciso fazer mais do que remediar. É preciso antecipar.

Avaliei as palavras da atriz como um alerta para o mundo e, especialmente, para a Organização das Nações Unidas (ONU).

Quando se analisam as mudanças no planeta desde a instituição das Nações Unidas, em 1945, percebe-se o crescente engessamento das estruturas e legislações sob as quais sobrevive o órgão.

Ou mudam as regras que balizam as relações entre os países ou voltaremos ao mundo multipolar, no qual as nações se enfrentam, coligadas ou solitariamente, pela conquista de objetivos pontuais, nem sempre moralmente adequados.

Tão logo cesse a justificativa para o embate, o país volta a fechar-se em copas, potencializando os nacionalismos e radicalizando as relações entre os povos.

As Nações Unidas são um sistema de castas, no qual cinco países podem tudo, poucos países podem alguma coisa e a maioria não pode nada.

São cerca de 200 representantes que tomam assento na Assembleia Geral, quase sempre para referendar ou negar uma decisão já decidida pelo Conselho Permanente.

Nas relações internacionais, a balança da Realpolitik procura equilibrar o sistema que contém o grupo de potências hegemônicas e o sistema orientado pelo processo de inclusão de todos, para uma tomada de decisão.

Um é efetivo, o outro é utópico.

Os cinco intocáveis, quando afrontados em seus interesses considerados vitais, encontram justificativas, sustentáveis ou mentirosas, para agirem solitariamente, sem prestar contas aos parceiros de projeto.

O otimismo pós queda do muro de Berlim, com a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e hegemonia imaterial dos Estados Unidos da América (EUA), ficou para trás.

O tabuleiro de poder está reconfigurado e, a cada evento disruptivo no planeta, se acelera a desidratação da ONU.

No quebra-cabeça, vislumbra-se a China ocupando um lugar de destaque, a Europa vivendo do saudoso passado, os Estados Unidos buscando novas formas de liderar efetivamente, a Rússia reconquistando seus espaços físicos de proteção e a Índia caminhando para tornar-se o país mais populoso do mundo ao tempo em que avança tecnologicamente.

Os demais contentam-se em capturar novos nichos que os valorizem nas relações e disputas mundiais ou assumir lideranças regionais subordinadas.

Migração, meio ambiente, água, energia, degelo nas calotas polares, campos agricultáveis, diferenças religiosas, conflitos étnicos serão alguns dos fatores justificadores para a atuação dos mais poderosos sobre os deficientes de poder que ousarem se indispor com a nova regra mundial.

A falta de um "terceiro", com poder dos argumentos e o argumento da força, para enquadrar os desobedientes, mesmo que poderosos, deixará o mundo refém da máxima de Maquiavel: "quando é preciso deliberar sobre a saúde da pátria, não se deve deixar de agir por efeito de considerações referentes ao que é justo ou injusto, caridoso ou cruel, louvável ou vergonhoso. Deve-se seguir o caminho que lhe salve a vida e a mantenha livre, rejeitando-se tudo o mais".

Talvez a Angelina Jolie tenha que viver na ponte aérea, saltando entre os países, voando aqui acolá, para continuar afagando, com seu carisma, os muitos que sofrerão nesta nova fotografia do planeta terra.

Haja disposição, porquanto as lideranças mundiais não parecem dispostas a ceder seus nichos de poder.

Paz e bem!