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Otávio Rêgo Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Amazônia integrada: única solução aos desafios contemporâneos

Facão do Guerreiro da Selva, concedido a quem passa por um dos mais difíceis testes do Exército Brasileiro, o Curso de Guerra na Selva - CComSEx/Divulgação
Facão do Guerreiro da Selva, concedido a quem passa por um dos mais difíceis testes do Exército Brasileiro, o Curso de Guerra na Selva Imagem: CComSEx/Divulgação
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Otávio Rêgo Barros

Otávio Rêgo Barros é general da reserva e doutor em ciências militares. Comandou as tropas brasileiras no Haiti. Foi chefe da comunicação social do Exército e porta-voz da Presidência da República.

Colunista do UOL

28/06/2022 04h00Atualizada em 28/06/2022 05h05

Em maio de 1984, eu pisei pela primeira vez em Manaus. Havia sido selecionado para realizar o curso de operações na selva para oficiais subalternos (COS-B), no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS).

À apreensão natural sobre o rigor do curso, somou-se o deslumbramento pela área preservada pelos militares do CIGS, onde fazíamos os treinamentos das técnicas e táticas a serem empregadas, como futuros líderes de pequenas frações em operações na selva.

As condições de treinamento eram muito rigorosas, exigindo capacidades psicomotoras e cognitivas em alto grau. Com duração aproximada de 11 semanas, a cada retorno da "selva" alunos eram desligados por insuficiência técnica ou problema físico.

Ao final, cerca de vinte guerreiros de selva alcançaram o brevê e o facão da onça símbolos do sucesso na missão. Ostentaríamos as conquistas, o resto da vida, em nossos uniformes de combate.

Muitos desses guerreiros serviram à Amazônia por anos, se tornaram profundos conhecedores do ambiente social e operacional, e ainda hoje dão suas contribuições para a manutenção da integridade e soberania daqueles rincões.

Já se passaram quase quarenta anos, período em que a Força Terrestre identificou como hipótese prioritária a defesa daquele território e moveu suas peças de manobra em direção à região, mantendo-se atenta à vigilância de nossas fronteiras.

Quando terminei o curso, os efetivos desdobrados na área giravam em torno de dez mil homens. Hoje, se somadas as três Forças, são cerca de quarenta mil homens e mulheres.

Quanto ao Exército, duas Brigadas de infantaria foram transferidas do Sul e Sudeste para a região. A Brigada de Santo Ângelo para Tefé e a Brigada de Niterói para São Gabriel da Cachoeira.

Para entendimento do leitor, uma Brigada é constituída de meios de combate e recursos humanos (efetivo de cerca de quatro mil militares) integrados entre armas, quadros e serviços, capaz de operar com relativa independência.

Existem Comandos Militares em Manaus e em Belém, e Brigadas de Infantaria de Selva nas cidades de Porto Velho-RO, Tefé-AM, São Gabriel da Cachoeira-AM, Boa Vista-RR, Macapá-AP e Marabá-PA.

As outras Forças têm desdobramentos diferentes, mas igualmente eficientes para as suas missões.

Mas, diante da magnitude do desafio de defender e preservar a Amazônia, algumas perguntas precisam ser formuladas:

- Qual o poder de combate que deve ser empregado para essa complexa missão?

- Como ele pode ser coordenado?

- Quais sistemas tecnológicos devem atuar em apoio?

- Qual a participação de outros entes do Estado e do Governo na tarefa?

- E, primacialmente, o que nós brasileiros, fugindo de estereótipos e visões exógenas, queremos para a Amazônia?

Além das Forças Armadas, muitos outros órgãos deveriam estar envolvidos diligentemente na missão de integrar e defender aquele território.

Entretanto, estão operando de forma independente e algumas vezes sem sinergia de informações, resultando em baixa eficácia do trabalho.

Quando uma tragédia como a do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Philips vem a público e o governo é atacado em várias frentes, nacionais e internacionais, ele promove uma intensa mobilização que resulta na fotografia ideal do que deveria ser o dia a dia naquela área.

As notícias e as imagens se esvaem, infelizmente, em algumas semanas. Resta mais um caso a lamentar entre tantos outros ocorridos naquela área.

É preciso dar foco ao problema da soberania e seus reflexos em nível político-estratégico. Blindar-se de questões ideológicas e atacar no centro de gravidade do problema.

Essencial a integração sem veleidades dos nossos órgãos de defesa e segurança.

Cooperação dos meios de segurança transfronteiriços nas vias de acesso advindas dos países amazônicos.

Criação de um ministério, que traria a força política do governo central diretamente à região. Com sede em Manaus, fugiria de cerimônias insossas e balacobacos de Brasília para no calor da cidade sentir realmente o desafio a ser enfrentado.

Talvez inaugurar o efetivo conceito de "comando conjunto", integrando sobre um único comando militar todas as forças desdobradas na área.

Empregar, como entes de cooperação junto ao Estado, índios para fiscalizar suas reservas, ambientalistas sinceros que não rezem apenas o terço internacional, acadêmicos interessados no desenvolvimento de pesquisas com os produtos da região, madeireiros que manejem legalmente áreas definidas para o extrativismo vegetal, pescadores que agreguem valor à pesca, garimpeiros contratados por empresas de mineração sob controle do governo, agronegócio que reconheça a força do meio ambiente para a valoração de seu produto etc.

O ilegal e o imoral seriam atacados pela cooptação ética dos convertidos à lei. Os homens e mulheres são do bem!

Há muito ainda a se comentar sobre a Amazônia. Vamos misturar no mesmo caldeirão vontades sinceras e desinteressadas da sociedade e agentes do governo que desejam a segurança, o desenvolvimento, a paz e o bem-estar sociais dos amazônidas.

Não importa governo, não importa ideologia, não importa matizes partidários. Importa sim, uma Amazônia soberana, integrada e protegida por nós brasileiros. A Amazônia é nossa. Selva!

Paz e bem!