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Paulo Sampaio


Não estão deixando Bolsonaro governar sem fazer alianças, diz Fontenelle

Antônia Fontenelle: "De fato, a covid-19 é uma gripe. Mata uns, outros, não" - Divulgação
Antônia Fontenelle: "De fato, a covid-19 é uma gripe. Mata uns, outros, não" Imagem: Divulgação
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

15/05/2020 04h00

Aparentemente, existem hoje três tipos de eleitores do presidente Jair Bolsonaro. Os que mantém o apoio (número em queda, segundo pesquisas); os que usam argumentações como "qualquer coisa é melhor do que o PT"; e os arrependidos, que aos poucos passam a revelar seu descontentamento.

A apresentadora Antônia Fontenelle está no primeiro grupo. "Minha aposta foi nele, e assim permanecerá." Para manter-se fiel, Fontenelle de vez em quando evita respostas "na lata". "Sou a favor do meio-termo", diz ela, em relação ao isolamento social. Seu candidato, ao contrário, faz tudo para derrubar a quarentena. O presidente não evita aglomeração, nem selfies no meio dos apoiadores.

Hoje, o ex-ministro Nelson Teich, que assumiu a pasta da Saúde há menos de um mês, pediu para sair. Ele substituiu Luiz Henrique Mandetta, que foi demitido por desavenças ideológicas com Bolsonaro.

Na entrevista abaixo, a apresentadora responde a questões sobre a "gripe" covid-19, as investigações sobre os Bolsonaros, e a saída do ex-ministro da Justiça Sergio Moro.

UOL — Você votou em Jair Bolsonaro com convicção, ou contra o PT?

Antônia Fontenelle — As duas coisas.

O presidente Jair Bolsonaro já disse em diversas ocasiões que considera a covid-19 uma "gripezinha" sem grandes consequências. Ele é contra quarentenas, não usa máscara nem evita aglomerações. Você o segue nisso tudo?

Sou a favor do meio-termo. Quem for do grupo de risco se isola, os demais têm de trabalhar. Seguindo as normas recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Não acho prudente desafiar o desconhecido. Prudência nunca é demais. De fato, a covid-19 é uma gripe que mata uns, e outros não.

Conhece alguém que contraiu o novo coronavírus?

Várias pessoas, mas já se recuperaram, sem nenhum dano, graças a Deus.

Desde que o presidente se elegeu, erguendo a bandeira da lisura e da transparência, pelo menos dois altos postos do governo foram acusados de participar de esquemas de corrupção — o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e o chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Fábio Wajngarten. Ambos permanecem no governo. Você está satisfeita com as justificativas do presidente para mantê-los nos cargos?

Foram acusados, mas não acompanhei o desfecho disso. Foi provada a culpa? Esse jogo de acusações é normal na política. Fato é, se forem culpados, têm de pagar.

O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, foi acusado de participar de um esquema de rachadinha de salários com funcionários da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O coordenador do esquema seria o assessor parlamentar Fabrício Queiroz, que, segundo as investigações, é miliciano. Qual a sua opinião a respeito?

Essa história perdura desde a pré-candidatura do presidente. Até onde eu sei, não conseguiram provar nada ainda. Mas é importante dizer que o meu foco é no presidente, minha aposta foi nele, até agora, e assim permanecerá. Não vi nenhuma acusação de corrupção por parte dele.

Um dos compromissos de campanha de Bolsonaro era governar sem precisar se unir a parlamentares que fazem o que chamou de "a velha política". Agora, em meio a uma crise cada vez mais grave, o presidente se aproxima de políticos do centrão, formado por um bloco de deputados que sabidamente negocia apoio em troca de cargos. Como eleitora, você cobraria a promessa dele?

Foi uma promessa, mas, ao que tudo indica, não estão deixando ele governar sem fazer alianças. Acredito que ele faça isso pela sobrevivência na cadeira da Presidência. O terror disso tudo são os nomes que a imprensa divulga como seus novos aliados. Eu já me informei com pessoas próximas que dizem que não procede, mas o que a imprensa diz é outra coisa. Só nos resta pedir intervenção divina, orar e esperar

A imprensa, então, tem responsabilidade na crise?

Todos sabemos que a imprensa não simpatiza com o governo, não preciso dizer isso.

Outra fonte de garantias na campanha eleitoral de Bolsonaro foi o ministro da Economia, Paulo Guedes, que divulgou suas intenções, pacotes e planos, mas até agora não se viu nenhum resultado concreto. O que está faltando?

Sou péssima em economia. Do pouco que entendo, confio no trabalho do Paulo Guedes. Se tem uma pessoa que não pode jamais abandonar o governo nesse momento é ele.

Sempre se disse a mesma coisa em relação ao ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Agora, além de deixar o governo, Moro acusa Bolsonaro de querer interferir na Polícia Federal para controlar inquéritos que investigam os filhos dele. E os dois se enfrentam publicamente.

Muito triste tudo isso. Moro no governo foi uma decepção. De todo modo, fica aqui o meu agradecimento pelo trabalho dele na Lava Jato.

Quem assiste à evolução do atual quadro do governo, sente um clima de insegurança entre os próprios assessores, secretários e ministros. As pessoas se perguntam quem será o próximo a cair. No momento, muitos apostam na secretária especial da Cultura, Regina Duarte. Artistas de todas as áreas se queixam de que ela não mostrou ainda a que veio.

Minha opinião é a mesma. Regina não tem gás e conhecimento para comandar a pasta e toda a demanda que requer. A nossa cultura está largada, abandonada, é lamentável, uma lástima.

Você mantém a intenção de se candidatar a um cargo público? Quando, por qual partido e qual seria a plataforma?

Por enquanto, não.

Paulo Sampaio