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Paulo Sampaio


Velório de animal doméstico cai até 15% na quarentena, dizem empresários

Velório de Mel, assistido online pela psicóloga Marina Figueiredo - Arquivo Pessoal
Velório de Mel, assistido online pela psicóloga Marina Figueiredo Imagem: Arquivo Pessoal
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

19/05/2020 04h00

Até o começo da quarentena imposta pela pandemia de covid-19, em março, a psicóloga Marina Figueiredo nunca havia passado tanto tempo na companhia de Mel, 9 anos, sua cadela da raça golden retriever. Foi bom e ruim. Diagnosticada há dois meses com uma cardiopatia congênita que comprometeu seu rim, Mel morreu na quarta-feira, 13.

O lado bom foi que Marina pode estar perto dela nos últimos momentos. "Eu cuidei da Mel o tempo todo, fiz comida natural, levei ao veterinário e dei os remédios na hora certinha. Ela foi tão especial que não me deixou vê-la sofrer. Fechou os olhos na grama, como se tivesse dormido."

A parte ruim, além da perda em si, foi despedir-se de uma companheira que se tornou muito mais apegada, não só porque estava doente, mas também por causa da disponibilidade de Marina no confinamento. "Não imaginava que fosse tão triste perder um animal", diz a psicóloga, que assistiu ao velório de Mel on-line, acompanhada das duas irmãs e da mãe.

Flores e caixa decorada

A empresa que produziu a despedida de Mel, a R.I.P. Pet, fica em Pindamonhangaba (a 150 km de SP) e tem unidades em Campinas e na capital. Normalmente, realiza cerca de 100 velórios por mês, mas, desde o começo da quarentena, registrou uma queda de 15% no movimento. "No interior, a situação é mais tranquila, não mudou nada. Mas na capital, está bem complicado", diz a veterinária Adriele Bassi, proprietária da empresa.

Ali, o valor do velório com cremação começa em R$ 700 (coletivo) e vai até R$ 1.290 (individual), mas, dependendo da disposição do cliente para investir, pode chegar a muito mais. "A gente oferece um leque grande de urnas e acessórios que vão de R$ 60 (urna simples) a R$ 35 mil (diamante feito com as cinzas do pet)", explica Adriele.

Segundo ela, o setor vem sofrendo o impacto das medidas adotadas pelas autoridades do mundo todo em função da pandemia. O isolamento social e a suspensão de velórios de humanos levaram a uma redução na demanda por serviços funerários de animais domésticos — que não transmitem o novo coronavírus. "Os clientes têm vindo menos se despedir pessoalmente", afirma ela, que disponibiliza do serviço on-line e da filmagem.

Seguindo o padrão atual de segurança, Adriele espaçou os horários dos velórios presenciais, equipou as salas com álcool em gel e paramentou os funcionários com macacões e máscaras. "Tomamos providências para que as famílias que queiram estar no velório não se encontrem. Entre um e outro, desinfetamos as salas."

Fato inédito

Um dos mais antigos serviços de funeral para animais domésticos de São Paulo, com 27 anos de funcionamento, o Jardim do Amigo registrou uma queda inédita de 10% na realização de velórios e enterros. "É a primeira vez, em todos esses anos, que tivemos esses resultados", diz a gerente, Cristiane de Sá.

Publicidade ajustada para tempos de pandemia - Divulgação - Divulgação
Publicidade ajustada para tempos de pandemia
Imagem: Divulgação

Localizado em uma área de 18 mil metros quadrados em Itapevi, Grande São Paulo, o cemitério dispõe de um extenso gramado e oferece aos visitantes a possibilidade de circular com o devido distanciamento social, mas ainda assim o número de tutores que têm ido levar flores aos túmulos, especialmente no fim de semana, diminuiu consideravelmente.

"As pessoas estão com medo, é natural", afirma Cristiane. Com estimados 10 mil sepultamentos realizados desde 1993, o cemitério cobra entre R$ 450 (velório e enterro coletivo) e R$ 1.600 (individual), mais R$ 190 de taxa semestral para manter o jazigo com capacidade para abrigar três animais. Por enquanto, não oferece a possibilidade de acompanhar o funeral on-line. A administração avalia se manterá o "Dia da Bênção dos Animais", um evento que atrai mais de 200 pessoas e é produzido tradicionalmente em outubro. "Não sabemos qual será o cenário até lá."

O Jardim do Amigo avalia se este ano poderá promover o "Dia da Bênção dos Animais", em outubro  - Divulgação - Divulgação
O Jardim do Amigo avalia se este ano poderá promover o "Dia da Bênção dos Animais", em outubro
Imagem: Divulgação

Trinta minutos

No Pet Memorial, de São Bernardo do Campo, Grande ABC, 20% dos velórios presenciais migraram para o on-line. Nessa opção, além de determinar o distanciamento entre os funcionários durante a realização do trabalho, a empresa estabeleceu um tempo máximo de 30 minutos para cada procedimento.

Muito antes da quarentena, em 2017, o velório da gata Nikole contou com a presença de cerca de 15 pessoas, uma verdadeira multidão para os padrões atuais de segurança.

A coach Cecy Passos pode receber mais gente no velório da gata Nikole, em 2017, no que no de sua mãe, no mês passado - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A coach Cecy Passos pode receber mais gente no velório da gata Nikole, em 2017, no que no de sua mãe, no mês passado
Imagem: Arquivo Pessoal

A tutora da gata, Cecy Passos, conta que o número de pessoas presentes ao velório de sua mãe, que morreu há um mês, foi menor. "Minha mãe era uma pessoa muito querida, imagine, teriam ido mais de 100 amigos, mas tivemos de obedecer o limite de dez pessoas", diz ela, reconhecendo a importância da medida.

Sofrimento mais intenso

Todas as empresas oferecem o apoio de um especialista, caso o tutor encontre dificuldade para enfrentar o desapego. De acordo com a psicóloga Patrícia Hernandez, 55, especializada em luto pela perda do pet, a morte de um animal de estimação durante o confinamento pode trazer um sofrimento ainda mais intenso e uma "crise extra", em um cenário já desafiador.

"O convívio com o animal traz a sensação de um 'porto seguro', a previsibilidade de uma oferta de afeto sem conflitos", explica. "Perdê-lo nesse momento eventualmente torna mais agudo o sentimento de desamparo e de ameaça."

Segundo a psicóloga, "a própria rotina de cuidados com o animal traz estrutura ao cotidiano do tutor e de sua família". "Esses elementos representam um fator de proteção para a saúde mental, diante de um cenário coletivo de medos e incertezas."

Paulo Sampaio