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Paulo Sampaio


Shopping de luxo e popular recebem visita no dia em que reabrem suas portas

Quatro uniformizados tomam a febre dos frequentadores - Paulo Sampaio
Quatro uniformizados tomam a febre dos frequentadores Imagem: Paulo Sampaio
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

12/06/2020 03h24

Quatro pessoas vestindo uniformes brancos tomam a temperatura dos visitantes à entrada do shopping JK Iguatemi, que reabriu suas portas para o público ontem, em horário restrito (das 16h às 20h), depois de quase três meses de quarentena por conta da pandemia de covid-19. Os shoppings de São Paulo assinaram um termo de compromisso com a Prefeitura, em que ficou estabelecido o tipo de comércio liberado para voltar a funcionar (lojas, farmácias, comida para levar); e o que permanece suspenso (teatros, cinemas e praças de alimentação).

O chão do JK Iguatemi está impecavelmente lustroso, há dezenas de seguranças espalhados pelos corredores e inúmeras plaquinhas informam que as pessoas devem manter a distância mínima de 1,5 m entre si. É para evitar o contágio do novo coronavírus, em meio à multidão que deve se acotovelar na disputa por uma bolsa de R$ 25 mil ou mesmo um boné de R$ 1.100. "O boné é de nylon, resiste a chuva", explica o vendedor.

Novela das 8

Na quinta-feira útil, o visitante endinheirado circula ali com o descompromisso de um personagem do núcleo rico da novela das 8. Aparentemente, os quatro "enfermeiros" postados com termômetro à porta servem para realizar o fetiche daquele consumidor por gente uniformizada, e também para fazer com que ele se sinta seguro para comprar seu Zegna em paz.

Nada mais inoportuno do que lembrar da pandemia que explode lá fora, quando o sujeito está em êxtase depois de gastar R$ 20 mil em um terno e R$ 30 mil em um relógio.

Todas as lojas garantem uma higienização rigorosa. A supervisora da grife PatBO, Carolina Miragaia, informa que é possível inclusive provar as peças, que são submetidas a um processo de superaquecimento que mata qualquer vírus:

"Depois que a cliente prova, a gente passa o steamer (vaporizador) na temperatura máxima", explica.

Nada de provar

No shopping Vaultier, no Brás, zona leste de São Paulo, que também reabriu suas portas ontem (de 6h às 10h), não dá pra experimentar nem higienizar nada.

"Seria impossível oferecer o box para a cliente provar a roupa", diz a comerciante Luciana Ricarte, 41, mostrando o espaço de dois metros quadrados onde expõe seu produto. "Nossa cliente é plus size. Vendemos manequins de 44 a 60. Para ela entrar aqui, a gente tem de sair."

Luciana Ricarte e o box de dois metros quadrados: "A bolsa é legítima" - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
Luciana Ricarte e o box de dois metros quadrados: "A bolsa é legítima"
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Ambiente pitoresco

Luciana define o Vaultier como um "shopping popular", e fala do ambiente ali como algo pitoresco. "Adoro vir trabalhar. O que eu me divirto!" Ela conta que toma conta de tudo na loja: desenha as roupas, vende e faz a contabilidade.

Diz que leva a vantagem de ter sido obesa mórbida, o que dá a ela a possibilidade de "saber o que a gordinha quer usar". "Quando eu tinha 147 kg, não encontrava nada que fosse tendência para comprar. Agora, eu descubro e copio", revela.

Muito orgulhosa do próprio negócio, Ricarte diz que o metro quadrado no Vaultier é mais caro que o da Oscar Freire - considerada a rua do comércio mas luxuoso de São Paulo. "Entre luvas, aluguel e condomínio, pago R$ 4 mil reais."

Menos de 1%

Por isso, a preocupação maior da administração não é a assepsia, mas a sobrevivência (da loja, não do comerciante). Dezenas de boxes encontram-se fechados. "Muita gente não aguentou pagar os encargos", diz Ana Maria Lima, dona da Bambu. "Os administradores deram 70% de desconto, e jogaram as luvas para o fim do ano, mas ainda assim ficou puxado para muita gente."

O público que circula no shopping por volta das 8h é "menos de 1%" do habitual, segundo Ana Maria. "Isso aqui estaria intransitável", diz ela. A coluna procura a administradora, mas uma assistente de Elizabeth Scordamaglio diz que ela não está, não pretende falar com jornalistas, nem atendê-los ao telefone.

Calçada cheia

Com um fluxo tão baixo, pelo menos a possibilidade de disseminação de covid-19 é menor. Médio. Ainda que o consumidor siga a orientação de ficar dois degraus afastado da pessoa que vai à frente na escada rolante, talvez não adiante mais nada depois que ele atravessa o mundaréu de gente que se ocupa do comércio informal na calçada.

"Não adianta ficar em casa. Quem não pegou, uma hora vai pegar. Todo mundo vai pegar", resigna-se o vendedor de carpetes Henrique Mateus, 44.

Mundaréu de gente na calçada do Vaultier, onde um segurança toma a febre de todo mundo que entra - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
Mundaréu de gente na calçada do Vaultier; no shopping, um segurança toma a febre de todo mundo que entra
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Pomba assustada

Mesmo sem o mesmo volume de frequentadores, o Vaultier tem mais fluxo que o JK. No shopping popular, os vendedores se identificam, não têm receio de dar informações nem falam aos sussuros.

No de elite, a controladora da Chanel se assusta como uma pomba à aproximação da reportagem. Uma outra mulher apressa o passo. Dou uma corridinha. Ela está mal-humorada porque não encontrou o tênis que queria "em azul". Diz que o marido já tinha "em branco" e "em verde". Diz que era para presenteá-lo.

Os dois se encontraram no shopping, por coincidência: "Ele veio comprar o meu presente."

Tento ser simpático: "Ah, vocês fazem aniversário no mesmo dia?" A mulher me olha como se eu tivesse xingado a mãe dela: "Não! É o Dia dos Namorados!!", e continua: "Olha, eu não vou falar mais nada!"

Mais amável, o "dono de estacionamento" Fernando Alves, 34 anos, conta que pagou "cinco e pouco" por uma jaqueta Gucci. Além da jaqueta, ele usa uma bolsa da mesma marca e um sapato. "A camisa é Burberry", diz ele, que foi de São Bernardo do Campo, Grande São Paulo, especialmente para fazer uma comprinha por conta da efeméride.

Sapato e calcinha

Sapatos Prada: R$ 4.350 (cada); promoção de calcinhas da loja de Gleicieli: 8 por 10 - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
Sapatos Prada: R$ 4.350 (cada); promoção de calcinhas da loja de Gleicieli: 8 por 10
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Um segurança vem na minha direção, diz que não posso "importunar" os clientes, nem tirar fotos das lojas.

Por sorte, deu tempo de fazer o registro da vitrine da loja da Prada, onde há duas manequins de vestido longo e sapatilhas coruscantes. Na tabuleta de preços, ao lado do valor dos sapatos, está escrito entre parêntesis (cada).

Luciana Ricarte e o box de dois metros quadrados: "A bolsa é legítima" - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
Luciana Ricarte e o box de dois metros quadrados: "A bolsa é legítima"
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Cada pé, ou cada par? O vendedor explica que é o par. E que tem cliente que entra ali e quer levar os dois pares pelos R$ 4.350, o que daria R$ 2.175 por par. Onde já se viu?

No Vaultier, Gleicieli Ferreira, 25 anos, gerente de uma loja de lingerie, posa para foto ao lado de uma placa que anuncia: "Promoção 8 calcinhas por R$ 10". Cada?

Do lado de fora do shopping, na calçada, uma senhora repete "Gucci, Valentino", com um punhado de cintos na mão. Diz que custam R$ 20. Confuso, tento me lembrar se era "cada".

Paulo Sampaio