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Paulo Sampaio


Psiquiatra do Hospital das Clínicas, em SP, interpreta o "Hospício Brasil"

Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

24/06/2020 04h00

Há cerca de um ano e meio no governo, o presidente Jair Bolsonaro desprezou a pandemia de covid-19, desconsiderou a saúde, abandonou a educação, ignorou a cultura e, no momento, se ocupa de inocentar o filho suspeito de chefiar uma organização criminosa na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Procura também se livrar dos fortes indícios de vínculo da família com a milícia carioca. Qualquer menção a esse comportamento é recebida por ele com gritos e xingamentos.

A princípio, era apenas a falta de respeito, de bom senso e consideração — condutas políticas as quais o brasileiro já está acostumado. Mas então, rapidamente, o governo evoluiu para a irracionalidade e, mais recentemente, para o disparate. Diariamente, o País acorda escandalizado com o nível de descontrole a que se chegou — e também com a fúria de quem apoia o presidente e de quem o repudia. (O vídeo postado no início do texto foi gravado ontem, em Higienópolis, SP, por volta de 20hs. Uma mulher canta o Hino Nacional aos berros, enquanto crianças e um homem com um megafone gritam "Fora Bolsonaro!").

A coluna buscou o auxílio de um psiquiatra do Hospital das Clínicas, doutor Paulo Sallet, para ajudar na interpretação do "Hospício Brasil". Sallet, 55, tem doutorado em "piscose" e trabalha há 26 anos na área.

Abaixo, o resumo da conversa com ele.

Síndrome de Hubris:

"Hubris é uma expressão tomada de obras dos pensadores gregos Sócrates e Platão, que designa um tipo de alteração comportamental que pode levar personagens investidas de poder à insanidade.

"A especulação a respeito da conduta desses personagens virou tema de interesse acadêmico a partir de um artigo intitulado 'Síndrome de Hubris: um transtorno de personalidade adquirido? Um estudo de presidentes norte-americanos e primeiro-ministros britânicos nos últimos 100 anos' (David Owen* & Jonathan Davidson/2009), publicado no jornal científico inglês "Brain".

"Basicamente, o conceito se aplica a pessoas com traços narcisistas acentuados que, na vivência do poder, tendem a intensificar esse comportamento ou a reeditá-lo de uma maneira ainda mais expressiva.

"Esses traços podem se manifestar na forma de arrogância, onipotência, menosprezo, preocupação excessiva consigo e falta de empatia.

"Na Grécia antiga, a Hubris está representada no mito de Ajax. Sujeito forte e poderoso, o herói dispensou a proteção que a deusa Athenas prometeu a ele nas guerras. Ainda sugeriu a ela que fosse cuidar de outros guerreiros.

"Indignada, Athenas infligiu nele uma espécie de loucura que o levou a identificar seus amigos como inimigos. Obnubilou a consciência de Ajax que, confundindo seus aliados com um rebanho de ovelhas, trucidou os animais convencido de se tratar do exército inimigo.

Perto de Deus

"A obsessão em estar sempre com a razão e com a verdade leva o sujeito investido da Hubris a instilar o ódio em todos que não reconhecem seu estatuto divino, e a se tornar sectário, desagregador, provocador, enfim, tudo o que um líder não deve ser.

"Tomando-se por um messias, ele acredita estar acima da opinião de técnicos, da experiência e do conhecimento.

Esquizotipia

"Nos últimos 50 anos, a psicologia tem chamado de 'esquiva ao dano' (harm avoidance) a forma como cada um de nós fica mais ou menos temeroso diante de riscos. Essa maneira de responder ao perigo iminente varia de acordo com características culturais e genéticas herdadas.

"Como seres humanos, desenvolvemos traços adaptativos à evolução da espécie, como agressividade e a desconfiança.

"Em certos indivíduos, porém, a expressão desses traços pode chegar a um nível de estruturação perturbador ou mesmo francamente psicótico.

"Socialmente, é intolerável que uma pessoa promova ataques a outras por motivos que só ela enxerga, ou sem um 'inimigo' que justifique aquela ação.

"Entre as características da esquizotipia, está uma tendência à persecutoriedade.

Paranoia

"É um pensamento recorrente que se alimenta das supostas más intenções dos outros. O combustível da paranoia é a desconfiança, que leva à agressão.

"Apesar de a desconfiança ser considerada um traço evolutivo do ser humano, ela pode se transformar em um transtorno mental, uma paranoia, caso ultrapasse determinado ponto. O alarme é a irracionalidade. O mais grave é não enxergá-la.

Exemplo prático: Há uma escalada nos números de casos e óbitos em uma pandemia, e o governante sugere que se invadam hospitais para checar se de fato a ocupação dos leitos está no limite.

"A verdade do paranoide não vai além de seus desejos pessoais, é aquela que contempla seu egocentrismo.

Apoio ao mito

"Muitas histórias observadas por ocasião dos movimentos nazistas e fascistas na Europa apresentavam personalidades apagadas, que não viam sentido na própria existência. Não estudavam, não produziam, não se consideravam relevantes. Até que apareceu um personagem que lhes deu um uniforme, uma insígnia, pôs uma arma em sua mão e lhes disse: "Você é o cara".

"Natural que esse 'cara' se aferre à imagem de quem lhe deu vida. Seu maior medo é voltar à insignificância.

Exemplo prático: a moça com traços sociopáticos que lidera um movimento de agressão ao STF e se reinventa como "presa política". Pessoalmente, ela pode até não querer matar ninguém. Porém, em uma atitude típica, manda recados como "vou ter esmurrar"; "eu sei onde você mora"; "vou pegar sua filha na porta da escola". De alguma forma, ela se sente autorizada a postar essas mensagens nas redes sociais. Alguma autoridade deu abertura para isso.

Os auxiliares

"O fenômeno se repete com auxiliares que servem à divindade. Muito leais, eles se ocupam basicamente de prestar devoção a ela, não importando o nível de constrangimento público que venham a se submeter. A responsabilidade do cargo e a suposta técnica exigida para exercê-lo são relegadas a segundo plano.

"Acometido da síndrome de Hubris, o governante pode, a qualquer momento, confundir esses auxiliares com o exército inimigo e descartá-los, atacá-los e até mesmo aniquilá-los.

Direita e esquerda

"Política (com p minúsculo) é um vasto campo para o exercício da paranoia. Em um universo caracterizado pela hostilidade, a competição e a intriga, tudo cheira a desconfiança.

"O surgimento eventual de lideranças radicais pode levar o eleitor a cair na armadilha da polarização, que leva a insensatez.

Exemplo prático: se alguém sugere a flexibilidade paulatina da quarentena, é fascista. Se alerta para os riscos de escalada da pandemia, é comunista.

"Um grita daqui, outro de lá, promovem-se ruidosos panelaços, para nada. No centro de tudo, impera a paranoia de um personagem narcisista, temeroso da segurança de seu clã, que só ouve o que lhe interessa e não percebe a aproximação da ruína.

Nêmesis

"Nas tragédias gregas, os deuses afrontados pelo sujeito investido da Hibris o obrigam a pagar o preço da prepotência. É a Nêmesis. Representa a volta do herói invencível aos limites transgredidos.

Esse retorno, no caso de Ajax, causou tanta humilhação que o levou a se matar. Isso corresponderia, na transposição para a nossa realidade, ao suicídio político da figura mitificada.

* David Owen escreveu uma série de livros tratando do assunto e capitaneou um comitê de investigação com o intuito de incluir a síndrome como diagnóstico oficial nas classificações internacionais de doenças - a CID 11 e o DSM 5 (Diagnostic and Statistical Mental Disorder)

Paulo Sampaio