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Plínio Fraga


Por que o tapa-olho virou símbolo de resistência nas ruas chilenas

Lasers têm sido usados por manifestantes para combater repressão policial no Chile - Ivan Alvarado/Reuters
Lasers têm sido usados por manifestantes para combater repressão policial no Chile Imagem: Ivan Alvarado/Reuters
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia ?Tancredo Neves, o príncipe civil? (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propões a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

21/11/2019 04h00

SANTIAGO - O tapa-olho tornou-se a imagem política mais forte do Chile conflagrado. Simboliza, antes de tudo, a dor de 285 manifestantes atingidos nos olhos por balas de borracha disparadas pelos carabineros, a principal força de segurança em Santiago. Adotado por jovens da capital chilena, o tapa-olho passou a ser o símbolo de um sistema político caolho, que não responde às demandas mais prementes _como se tomado por uma cegueira brutal.

As centenas de pessoas que sofreram traumas oculares graves foram atingidas, principalmente, por balas de borracha endurecidas por metais e cartuchos de gás lacrimogêneo disparados contra manifestantes desde 19 de outubro, quando a revolta social chilena explodiu em razão do aumento dos gastos com transporte, educação e saúde, além da redução do valor dos benefícios dos aposentados.

As centenas de ferimentos nos olhos levaram a uma investigação independente que apontou que as balas de borrachas se fragmentavam em pequenas esferas ("perdigones de goma") que deveriam ser 100% borracha, mas que, na realidade, continham também chumbo e metal em sua constituição. Em média, cada bala tinha 80% de borracha e 20% de substâncias pesadas como o chumbo.

Nesta semana, os carabineros anunciaram a suspensão do uso das balas de borracha como munição antidistúrbios. Não se sabe se para melhor ou para pior. O comandante dos carabineros informou que as forças de segurança usarão armas de fogo nas situações que considerarem adequadas. Como as manifestações continuam, é de se esperar que os números da violência cresçam: 23 mortos, mais de 2.000 pessoas feridas, 15 mil detidas e 6.000 presas.

Na praça Itália, no centro de Santiago, o estudante Cristóbal Olhaberry exibe dezenas de marcas no corpo. Parecem tatuagens de moedas que lhe tomam os braços, as pernas, as costas, a barriga e o peito. Contei 51 marcas. "Tive sorte. Ninguém me atingiu nos olhos", contou ele. "Vários amigos foram atingidos no olho. E tenho certeza: de forma proposital. Os policiais miram nossos olhos", me disse em tom de voz seguro, enquanto mexia no boné e no skate.

As abordagens da polícia e a reação dos manifestantes estão cada vez mais violentas. Nesta quarta, durante ato com mais de 400 pessoas em Santiago, um grupo cercou um carro da polícia e o atacou com paus e pedras. Era ocupado por policiais mulheres que foram feridas, sem possibilidade de reação. A violência tem sido a marca policial quando as tropas estão nas ruas. Estão sendo investigadas acusações de homicídios, espancamentos e até abusos sexuais por parte de policiais.

Agora os jovens manifestantes têm usado emissores de raios laser para atrapalhar a visão e a mira dos policiais. Esses equipamentos também podem provocar lesões nos olhos, a depender da potência do emissor e da quantidade de tempo à que as vítimas são expostas. Tal uso rebelde fez com que confrontos com a polícia fossem chamados de "auroras boreais".

O impasse chileno é conhecido aqui como "estallido social". É fato que algo se rompeu e parece que demorará para que a sociedade se recupere das divisões fratricidas das quais as ruas são só reflexo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.