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Plínio Fraga


Quem é essa gente que toca a cultura no governo Bolsonaro?

Roberto Alvim, secretário de Cultura, pediu currículos em redes sociais - Pedro Saad-18.nov.2015 / Folhapress
Roberto Alvim, secretário de Cultura, pediu currículos em redes sociais Imagem: Pedro Saad-18.nov.2015 / Folhapress
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

28/11/2019 13h10

A despeito da paranoia direitista que diz que a "cultura é de esquerda", intelectuais e artistas conservadores deixaram marcas profundas na cultura brasileira. Cada qual a sua maneira, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Alceu Amoroso Lima, Euclides Figueiredo, Otto Maria Carpeuax e Gustavo Corção são exemplos de conservadores reconhecidos como intelectuais e artistas com pensamento e obras relevantes.

Sabe-se que a "arte sempre alcança a finalidade que não tem" (Carpeaux); entende-se que o "saber sem fim social é uma futilidade" (Freyre) e aprende-se sempre que o "passado não é o que passou, mas aquilo que fica do que passou" (Amoroso Lima) e que o "subdesenvolvimento não se improvisa, por ser obra de séculos" (Rodrigues). Enfim, podiam ser conservadores, mas eram intelectuais e artistas de fato.

Na dita cultura popular, a lista de conservadores poderia se estender ao infinito, de Roberto Carlos a Wilson Simonal na música, de Janet Clair a Ivani Ribeiro na produção televisiva, só para citar casos indiscutíveis.

Desde que assumiu a Secretaria Especial da Cultura, o diretor de teatro Roberto Alvim tem feito o que diz ser um "chamado para artistas conservadores criarem uma máquina de guerra cultural". Em mensagens nas redes sociais, pediu que profissionais alinhados com "os valores conservadores no campo da arte" enviassem a ele seus currículos.

O resultado de tal método de busca de quadros para elaboração de políticas culturais pôde ser observado nesta semana com o anúncio de colaboradores-chave de Alvim.

Para chefiar uma fundação em homenagem a Zumbi dos Palmares, foi escolhido um detrator da memória do líder negro. Para a seção de diversidade cultural, escolheu-se obtusa conservadora católica. Para a seção de fomento e incentivo à cultura, optou-se por um artista de mentalidade restrita e obra pífia. Para o audiovisual, indicou-se uma comerciante com demonstrado pendor à cegueira cultural. Para a economia criativa, um modorrento professor que atribuiu os males do mundo ao marxismo cultural. Para uma das instituições mais importantes da memória cultural brasileira, indicou-se uma jornalista desmemoriada.

Imaginou-se que a cruzada de Alvim em defesa dos valores conservadores no campo da arte poderia ter algum apoio da elite conservadora das artes. Seus passos iniciais são vergonhosos até se analisados por conceitos caros à direita como a meritocracia. Em vez da elite da cultura, Alvim optou por proselitistas despreparados da cultura.

Essa gente, para usar a expressão que dá título ao novo romance de Chico Buarque, reza na cartilha opaca da irrelevância cultural. Essa gente diz-se contra o vitimismo quando confrontada com centenas de anos de escravidão e desigualdade; essa gente põe-se em combate contra a cultura da ditadura verde quando posta à frente de dados irrefutáveis na questão ambiental e climática. Essa gente resume seus credos aos chavões do conservadorismo: Deus, pátria, família, propriedade, liberdade individual e direito à legítima defesa. Essa gente nunca produziu nada original _ seja um pensamento, seja um mísero picolé que pudesse deleitar um personagem de Nelson Rodrigues.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Plínio Fraga