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Plínio Fraga


Uso de lema fascista por assessor de Bolsonaro é mais ardil do que chiste

Flores sobre o túmulo do ditador espanhol Francisco Franco, no vale dos Caídos, na Espanha - Juan Medina/Reuters
Flores sobre o túmulo do ditador espanhol Francisco Franco, no vale dos Caídos, na Espanha Imagem: Juan Medina/Reuters
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

13/12/2019 04h00

As palavras por vezes revelam, por vezes traem. Num simples tuíte com 234 caracteres, Filipe Martins, assessor especial do presidente Jair Bolsonaro, apropriou-se de um slogan fascista para resumir sua ação política.

Ao responder mensagem de feliz aniversário do vereador Carlos Bolsonaro, o filho 02 do presidente, Martins escreveu: "É uma honra fazer parte deste momento e lutar ao lado de gente que estaria disposta a morrer pelo nosso país e a sacrificar tudo em nome do que é justo e bom. Que a escória continue se mordendo de raiva. ¡Ya hemos pasao!"

"Nós já passamos!" foi uma resposta dos fascistas espanhóis ao famoso discurso libertário de Dolores Ibárruri, a mítica La Pasionaria, que alertava aqueles que ameaçavam a democracia: "Não passarão!"

Martins, que se apresenta como professor de política internacional, não estava nem sequer sendo original ao buscar carona no lema fascista do ditador espanhol Francisco Franco (1892-1975). Em maio passado, o partido Vox, legenda ultradireitista espanhola, havia recorrido ao bordão em ação propagandística que indignou grande parte dos espanhóis.

O moto "não passarão" está ligado à resistência democrática na Guerra Civil espanhola (1936-1939). Isidora Dolores Ibárruri Gómez (1895-1989) foi uma líder política basca comunista. Durante discurso transmitido pelo rádio em 19 de julho de 1936, um dia após o fracassado golpe de Estado que iniciou a guerra civil, afirmou: "O país inteiro vibra com indignação com aquelas pessoas sem coração que querem afundar a Espanha democrática e popular em um inferno de terror e morte. Mas eles não passarão!"

A partir daí, a expressão "não passarão" multiplicou-se em faixas, cartazes, camisetas e versos musicais. Quando Dolores Ibárruri discursou, entretanto, o lema já tinha 20 anos. Nascera durante a Primeira Guerra Mundial e é atribuído a Robert Georges Nivelle, um oficial do marechal Petáin, durante a batalha de Verdun. Esse confronto foi travado em 1916 com 377 mil baixas francesas e 337 mil alemãs, sem que o exército alemão fizesse progressos significativos.

Em 1939, com o final da guerra civil espanhola e a vitória franquista, os fascistas puderam responder: "Nós já passamos".

O novo fascismo, ou o fascismo travestido de novo, abunda nas reações radicais aos feitos colaterais da globalização _ decomposição da classe trabalhadora tradicional, remanejamento da estrutura de empregos, intensificação da migração. Aparece em surtos anacrônicos de xenofobia, no temor de mudanças institucionais em termos de costumes e orientação sexual. Exacerba-se quando a degradação social, alimentada por elites predatórias, lança as classes sociais mais baixas nos braços dos autoritários e dos produtores de ódio. Estabelece assim as condições para o exercício de uma velha política, calcada no rancor e na violência. Como se um trator político passasse por sobre os adversários. Aos defensores do processo civilizatório, resta dizer: "Não passarão!".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Plínio Fraga