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Plínio Fraga


Como é feito o uso político dos dados roubados nas redes sociais

O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama Melania: campanha eleitoral teve intenso uso de dados das redes sociais - Saul Loeb/AFP
O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama Melania: campanha eleitoral teve intenso uso de dados das redes sociais Imagem: Saul Loeb/AFP
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

06/01/2020 09h37Atualizada em 06/01/2020 16h28

O novo vazamento de dezenas de milhares de documentos da Cambridge Analytica, empresa de dados extinta acusada de influenciar eleições mundo afora, envolveu o Brasil apenas lateralmente. Pelo que se sabe até agora, a empresa tentou arrumar sócios e clientes por aqui, sem grande sucesso.

É um bom momento, no entanto, para entender como as campanhas políticas e eleitorais são feitas hoje no mundo das redes sociais.

O grande ativo da Cambridge Analytica foi o fato de ter se apropriado do dados de 87 milhões de perfis no Facebook, reunindo usuários de 68 países, entre eles o Brasil. Analisando as postagens, as interações e a navegação dos usuários, a empresa prometia a construção de mensagens altamente refinadas e direcionadas para os diversos eleitores.

Eles seriam divididos em microgrupos muito mais precisos do que os estratos clássicos de pesquisas eleitorais. Em vez de saber como votam os eleitores de baixa renda e escolaridade, por exemplo, a empresa oferecia categorias emocionais baseadas no comportamento dos usuários na rede: o raivoso de direita, o ambientalista sensível, o curioso indeciso, entre milhares de outros.

Na virada deste ano, uma conta anônima do Twitter divulgou links para material da Cambridge Analytica sobre eleições no Brasil, na Malásia e no Quênia.

O principal analisador dos documentos da Cambridge é Christopher Steele, especialista em inteligência por trás do dossiê que revelou a influência russa na eleição de Trump nos EUA em 2016. Protagonista de um documentário a respeito, Kaiser disse que o escândalo de dados do Facebook fazia parte de uma operação global que envolvia governos, agências de inteligência, empresas comerciais e campanhas políticas para manipular e influenciar pessoas.

"Microtargeting" é a palavra-chave pare entender a estratégia eleitoral vendida pela Cambridge Analytica. Consiste em atuar, como permite deduzir a palavra em inglês, em microalvos, utilizando-se de modelos matemáticos e computadores para decifrar a cabeça dos eleitores.

Os computadores são alimentados com dados diversos de usuários/eleitores de uma determinada categoria ou região: quais as revistas e os jornais mais lidos, quais os produtos mais consumidos, qual a quantidade e linha de grupos culturais, sociais e econômicos preponderantes, o que escrevem, curtem e repassam, além das óbvias informações de renda e escolaridade. A partir daí, é possível construir um arcabouço sobre quais valores e conceitos são mais importantes para aquela comunidade ou grupo e adequar o discurso do candidato e as inserções publicitárias a esses anseios.

O "microtargeting" começou a ser usado dos EUA nas eleições de 2000, mas foi elevado ao máximo ao potencializar informações socioeconômicas com postagens em redes sociais que expressão emoções, desejos, vinculações afetivas, alegria, raiva etc.

As campanhas políticas e eleitorais já deixaram de ser conduzidas por uma mal definida sapiência política. Elas estão cada vez mais submetidas às regras mercadológicas erguidas a partir de dados surrupiados de milhões de usuários das redes.

Plínio Fraga