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Regina, ex-Namoradinha do Brasil, decide noivar com a Cultura

Ela já foi no teatro a Judia Branca Dias. Que tratamento dará às minorias? - divulgação
Ela já foi no teatro a Judia Branca Dias. Que tratamento dará às minorias? Imagem: divulgação
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

20/01/2020 16h56

Regina Duarte, ora vejam, resolveu inovar a prática na vida pública. Aceitou conhecer a Secretaria de Cultura, ver como a coisa funciona, fazer uma espécie de estágio. Se gostar, ela fica. Nunca se viu nada parecido. O governo Bolsonaro é notório por abrigar pessoas que estão exercendo o seu primeiro emprego. Aos 72 anos, não é o caso da atriz. Mas é sua estreia na vida pública.

A antes chamada "Namoradinha do Brasil" disse que está em fase de noivado. Não sabe se vai dar casamento>

"Nós vamos noivar, vou ficar noiva, vou lá conhecer onde eu vou habitar, com quem que eu vou conviver, quais são os guarda-chuvas que abrigam a pasta, enfim, a família. Noivo, noivinho", declarou a Victória Azevedo, da coluna de Mônica Bergamo, da Folha.

Belo começo!

A atriz afirmou ainda:
"Quero que seja uma gestão para pacificar a relação da classe com o governo. Sou apoiadora deste governo desde sempre e pertenço a classe artística desde os 14 anos".

É preciso saber o significado deste "desde sempre": quer dizer mesmo "desde a campanha" ou "para o que der e vier". Em qualquer caso, é preciso ver a coisa com cuidado.

Regina no posto ou qualquer outra pessoa, é preciso saber o que fazer com esta diretriz, que foi repassada a todos os órgãos subordinados à secretaria de Cultura:
"Há o interesse precípuo em promover o renascimento no cenário cultural e artístico, fortalecidos por princípios e valores da nossa civilização, onde a Pátria, a Família, a determinação e, em especial, a nossa profunda ligação com Deus, norteie o que nos propomos a realizar. Que o nosso trabalho tenha as virtudes da fé, da lealdade, da coragem e da luta contra o que degenera; e que estas virtudes sejam alçadas ao território sagrado das obras de arte. Uma Cultura com obras que configurem toda a importância para a harmonia dos brasileiros com a sua terra e sua natureza, elevando a nação acima de interesses particulares."

Trata-se de um mimo do discurso fascistoide, que, não obstante, está afinado com o novo governo.

Fico aqui me perguntando se a Regina Duarte que foi protagonista de uma das montagens da peça "O Santo Inquérito", de Dias Gomes, no papel de Branca Dias, combina com a secretária de Cultura do governo que ela apoia "desde sempre".

Branca Dias, portuguesa de nascimento, foi duplamente processada pelo Tribunal do Santo Ofício: em Portugal e no Brasil, para onde havia emigrado. Acusação: judaísmo.

Vamos ver. Regina vai substituir o secretário que resolveu mimetizar o nazista Joseph Goebbels. Vamos ver que tratamento dará, por exemplo, às minorias, abominadas pelo bolsonarismo.

Reinaldo Azevedo