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Espanto: o bolsonarista do BNDES lamenta não ter havido corrupção no banco!

Gustavo Montezano: o rapaz apela à tautologia e a línguas estranhas e engrola inconsistências sobre o resultado da auditoria - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Gustavo Montezano: o rapaz apela à tautologia e a línguas estranhas e engrola inconsistências sobre o resultado da auditoria Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

29/01/2020 17h09

Parece que o governo Bolsonaro está desolado com o fato de que não se encontraram sinais de corrupção no BNDES, especialmente nas operações havidas entre o banco e o grupo J&F. Na verdade, o que se tem é precisamente o contrário: quem conhece o desdobramento das operações de financiamento com a gigante sabe que o BNDES obteve lucro. E isso virou uma enorme chateação para o bolsonarismo. Tanto é assim que Gustavo Montezano, o presidente da instituição, concede uma entrevista nesta quarta em que diz coisas que não fazem o menor sentido. Vamos ver.

O alvo principal da auditoria, que pretendia abrir a tal caixa-preta, eram operações de financiamento de mais de R$ 20 bilhões com empresas do grupo J&F. Havia a certeza, vinda sabe-se lá de onde, de mutretas de montão. Inexistiam. O BNDES ganhou dinheiro. E aí? Dizer o quê? Montezano se saiu com esta conversa nesta quarta:
"A gente (Brasil) construiu leis, normas, aparatos legais e jurídicos que tornaram legal esse esquema de corrupção. A conclusão é essa".

Do que ele está falando? A que esquema de corrupção se refere? Com absoluta certeza, ele também não sabe.

Perguntaram ao rapaz, nem poderia ser diferente, a que lei se referia. Afinal, estava tentando dizer o quê? E, mais uma vez, ouviu-se um raciocínio no mais puro e castiço bolsonarês:
"Nosso Brasil viveu um dos maiores escândalos de corrupção da história, turbinado com dinheiro público. Esse dinheiro saiu dos cofres do povo brasileiro. Então é legítimo que o povo se pergunte e questione: 'mas como não houve nada de ilegal [no BNDES]?'. E a verdade é que a gente concluiu que não houve nada de ilegal. A conclusão é essa. E é legítimo que a população tenha essa dúvida, e é importante que o banco esclareça que não fez nada de ilegal"

Poderia ter dito, cruzando os bracinhos e fazendo beicinho:
"Ah, que droga, poxa! A gente aqui preparado para pegar os bandidos, para tentar mandar todo mundo para a cadeia, para brincar de Lava Jato do BNDES, e vêm esses especialistas, examinam as contas, escarafuncham milhares de documentos e não acham nada!? Agora a gente faz com a tal caixa-preta que não existe o quê?"

Pois é... Montezano prefere endossar o sentimento do povo de que houve corrupção, mesmo sem ter havido, o que ele reconhece. Não custa lembrar que, inicialmente, ele tinha jogado a auditoria inteiramente nas costas do governo Temer. Depois teve de recuar e admitir que ele próprio autorizou aditivo em contrato. Afinal, era uma questão de hora revelar a tal "caixa-preta". Ainda em agosto, ao se referir a aviões comprados por João Doria e Luciano Huck com uma linha de financiamento do banco — regular, legal —, Bolsonaro prometeu abrir a dita-cuja.

Montezano percebeu que sua explicação estava, vamos dizer, um tanto etérea. Aí baixou um misto de Conselheiro Acácio com o Espírito Santo no rapaz, e ele falou um troço que varia do óbvio, do tautológico, ao incompreensível, apelando quase línguas estranhas. Leiam:
"O problema de temas complexos não necessariamente é o fato, é a explicação. Como você explica para uma população geral, que paga altos impostos, que não tem escola, não tem saúde, não tem segurança, que a gente emprestou R$ 20 bilhões para (quem se envolveu em) um dos maiores esquemas de corrupção da história, com o dinheiro deles (população), e não teve nada de ilegal?".

Ah, entendi. Parece que ele está vivendo um momento de crise existencial. Bem, postas as coisas da maneira como ele faz, só haveria uma resposta, não é mesmo? A única saída seria mentir porque, afinal de contas, a população, então, só acreditaria na mentira.

Leio ainda no Estadão:
Ele [Montezano] disse ainda que é importante a sociedade fazer um debate "consistente" e "aprender com os erros do passado". Segundo o presidente do banco, foram fatos que "machucaram" o País. "Acho que todos nós estamos convencidos que foi um erro grande para o nosso País. Ninguém tem dúvida disso. Então como é que a gente legalizou um troço desses?", questionou.

Legalizou o quê? Do que ele está falando? Das operações de crédito do BNDES, é isso? Montezano pretende, por acaso, presidir um banco de fomento que não fomente nada, é isso? Ou quer fazer do BNDES uma instituição voltada para ao microcrédito? Ou prefere, antes, encontrar um rumo na vida.

Dou uma sugestão a este rapaz: a verdade! Diga: "Nós acusamos a existência de uma caixa-preta do BNDES e estávamos mentindo. Não existe! Pedimos desculpas a todos."

Reinaldo Azevedo