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Falas e silêncios indecorosos sobre a absurda morte do miliciano Adriano

Maurício Barbosa, secretário de Segurança Pública da Bahia. Explicações são insuficientes - Alberto Maraux - Ascom SSP
Maurício Barbosa, secretário de Segurança Pública da Bahia. Explicações são insuficientes Imagem: Alberto Maraux - Ascom SSP
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

11/02/2020 08h07

Os Bolsonaros — o pai, Jair, e a filharada — não comentaram a morte do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega. Não tiveram nem a delicadeza de agradecer os préstimos, ainda que involuntários, do secretário de Segurança da Bahia, Maurício Barbosa. Ao se referir à ação que matou o ex-capitão do Bope do Rio, Barbosa afirmou: "Pelo menos não se está lamentando a morte de nenhum policial".

Bem, há que se saudar a não-morte de um policial a qualquer tempo. A questão é saber se esse é o único critério para avaliar se uma operação foi bem-sucedida. E, por óbvio, não foi. Até porque se pode apostar, sem medo de errar, que teria sido possível manter a vida tanto dos policiais como do arquivo que foi queimado na operação.

Quanto mais se sabe sobre o que se deu num sítio em Esplanada, cidade a 150 quilômetros de Salvador, menos explicável se torna o desfecho. Um segurança de Adriano foi preso antes, e este teria entregado o lugar em que se acoitava o chefe. Trata-se de uma casa situada em área aberta, a que se pode fazer, em sentido literal, um cerco. Já escrevi aqui: se Adriano não era um suicida, a sua única saída seria render-se. A questão é saber se lhe foi dada essa opção.

Quando o secretário de Segurança toma como medida única do sucesso a incolumidade dos policiais, sou tentado a achar que a preservação da vida de Adriano não estava nos planos. E, como se sabe, com a concordância da polícia e do governo do Rio de Janeiro. O governador Wilson Witzel, em entrevista, fez questão de dividir os méritos da morte do miliciano com o Polícia da Bahia, chamando também para si parte da responsabilidade pelo feito.

Pergunta: ao fazê-lo, estava mandando recado para quem? Há quem tenha lido a sua fala como uma espécie de olho espichado para Jair Bolsonaro: "Bandeira branca, amor, não posso mais. Pela saudade, que me invade, eu peço paz..."

Barbosa anunciou que a corregedoria da PM da Bahia vai avaliar a operação. Com a devida vênia, eu economizaria dinheiro público porque já conheço o resultado. Sem ser especialista em segurança, deixo uma dica para eventuais futuras operações, quando um criminoso estiver acoitado em uma casa num quase descampado.

Se for um bandido realmente perigoso, com informações sobre uma organização que já ganha dimensão nacional e vinculado a figurões da República, sugiro:
- auxílio de um helicóptero;
- uso de um megafone para o convite à rendição;
- que se liguem as câmeras de pelo menos quatro celulares -- é coisa tão baratinha! -- para que se filme a operação de vários ângulos.

E pronto! Tivessem as coisas sido feitas dessa maneira, então saberíamos em que circunstâncias um procurado por duas polícias é morto dentro de uma casa.

Mais: a cena do crime não foi devidamente preservada para uma perícia rigorosa.

A essa altura, o leitor tem o direito e até o dever de perguntar: "Qual é a sua hipótese, Reinaldo?" Bem, eu não tenho hipótese nenhuma. Tenho a certeza que alguns especialistas vocalizam, a que somo apenas um pouco de bom senso: fez-se tudo errado. Com esse padrão de atuação das polícias, o crime, por certo, sempre andará na frente, não é mesmo?

Outro silêncio eloquente é o do ministro da Justiça, Sergio Moro, cujo decoro, com a devida vênia, se torna, a cada dia, sinônimo de escândalo.

Bolsonaro silenciou, mas não de todo. Comentou indiretamente o caso, mas para atacar, mais uma vez, a imprensa:
"[Queria] compartilhar com vocês, mas tudo será deturpado. Então lamento, mas não vou conversar com vocês. O dia que vocês, com todo o respeito, transmitirem a verdade, será muito salutar conversar meia hora com vocês. [Falar de] problemas dos mais variados possíveis, dá para resolver, gostaria de compartilhá-los. Repito: não o faço porque, ao haver deturpação, a solução ficará mais difícil, talvez impossível".

Perfeitamente!

Acho que Bolsonaro silenciou porque comemorar a morte de miliciano, ainda que incômodo, não combina, vamos dizer assim, com o ethos desse deste governo. De resto, desta vez, ele nem mesmo pode aproveitar a ocasião para atacar o PT.

Reinaldo Azevedo