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Fala de Guedes representa o exato oposto do que deve fazer um professor

O professor Guedes ensina como é o mundo normal quando o câmbio está no lugar - reprodução
O professor Guedes ensina como é o mundo normal quando o câmbio está no lugar Imagem: reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

14/02/2020 16h58

O ministro Paulo Guedes, na expressão de um amigo que é economista do topo da cadeia alimentar — ops! Intelectual —, está parecendo um vendedor de carro usado meio enrolão. Como sabe que o produto que tem passar adiante está meio bichado, embora exiba algumas qualidades, vai falando lateralidades para ver se vende a estrovenga...

Agora, segundo empresários, ele atribuiu a sua fala sobre as domésticas a seu "tom professoral".

Hein?

É professor de quê? De preconceito e figura de linguagem infelizes, que, de resto, desinformam?

Vamos ao ponto.

A fala foi a mais pura expressão do preconceito, sim. E é também um pouco covarde porque, por óbvio, empregadas não iam à Disney nem no tempo da paridade cambial. O professor — o que supõe coragem intelectual — deveria deixar claro que queria mesmo se referir a parte importante do eleitorado de Bolsonaro, de classe média para alto, que está inconformada porque as viagens internacionais ficaram muito mais caras, certo?

Falou também aos ricos? Queridas e queridos, ricos viajam com qualquer câmbio.

O professor teria de explicar que o mar não está para peixes médios, que se sentiam roubados pelo petismo, compensados pelo morismo e vingados pelo bolsonarismo. E, como diz o ministro, não voltará a ficar tão cedo.

Daí as sugestões: nada de Disney — um dos destinos preferenciais dessa turma. O negócio agora é escolher praias por aqui mesmo, uma das chapadas, a casa de Roberto Carlos...

Não deixa de ser curioso o ministro atribuir a bobagem a seu "tom professoral". A sala de aula é justamente o lugar em que se contestam paradigmas, em que se questionam "doxas", em que se contestam preconceitos. O seu exemplo faz precisamente o contrário.

E, por óbvio, deixa de explicar um monte de coisas, como já afirmei aqui. Afinal, o ministro sabe ser falaciosa a afirmação de que o dólar na estratosfera traz apenas efeitos positivos na economia. E mais ainda: não é verdade que a moeda lá está apenas em razão das nossas virtudes.

Reinaldo Azevedo